ROBERTA SIMON

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A RETÓRICA DAS RELAÇÕES PÚBLICAS:

 

reflexões e contribuições

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Escola de Comunicações e Artes

Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo

Curso de Pós-Graduação Lato Sensu de Especialização em Gestão

Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas

 

São Paulo, 2005.



ROBERTA SIMON

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A RETÓRICA DAS RELAÇÕES PÚBLICAS:

 

reflexões e contribuições

 

 

 

 

 

Monografia apresentada ao Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em cumprimento parcial às exigências do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu, para obtenção do título de Especialista em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas, sob orientação da Profa. Dra. Sidinéia Gomes Freitas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Escola de Comunicações e Artes

 

São Paulo, 2005.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DEDICATÓRIA

 

 

A minha família e namorado pela compreensão, estímulo, amor, paciência e incentivo para a concretização deste sonho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AGRADECIMENTOS

 

 

A todos aqueles que contribuíram de sua forma especial para a realização deste trabalho. Familiares, namorado, amigos, colegas do curso de pós-graduação, a chefe, os professores do curso de Semiótica da Casa das Rosas/SP, e a todos docentes do Gestcorp que colaboraram para meu aprofundamento do estudo sobre a arte da comunicação, em especial, a professora orientadora Sidinéia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RESUMO

 

 

Este trabalho apresenta uma reflexão sobre a influência da retórica na teoria das Relações Públicas. Sendo a retórica um instrumento da semiótica e da lingüística, proferida no relacionamento humano de uma sociedade de massa, adquire características peculiares do meio em que se estabelece. Assim como as Relações Públicas, a retórica movimenta-se numa interface cultural heterogênea como ferramenta de poder para a legitimação de seus discursos e a polarização de seus interesses.

A comunicação é necessária no relacionamento humano para difundir valores, concretizar a democracia social e dissipar os conflitos iminentes da sociedade plural através da compreensão mútua. As Relações Públicas têm uma função política de administrar, mediar e mesmo criar as interfaces do homem social, que necessita desta interação para se confirmar na sociedade. Da mesma forma            que as relações humanas, a linguagem, o logos e a estética dos discursos retóricos são moldados pelas variáveis do sistema social.

Esta pesquisa é uma tentativa de dar uma visão ampla às Relações Públicas, relacionando às áreas afins e, principalmente, ao papel essencial que a arte da argumentação lhe confere.

 

 

 

 

Palavras-chave:

Relações Públicas – retórica – linguagem – cultura – valores – relações humanas – sociedade de massa – poder

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ABSTRACT

 

This paper presents a reflection on the influence of the rhetoric in the theory of the Public Relations. Being the rhetoric an instrument of the semiotics and of the linguistics, uttered in the human relationship of a mass society, it acquires peculiar characteristics from its environment. As well as Public Relations, the rhetoric is moved in a heterogeneous cultural way as a tool of power for the parts to legitimate their speeches and polarize their interests. 

Communication is necessary in human relationship to diffuse values, to render the social democracy and to dissipate the urgent conflicts of the plural society today through mutual understanding. As same as Public Relations, the political function of managing, mediating and even creating, the interfaces of the social man', who needs this interaction to be confirmed in society. The logos and the aesthetics of rhetorical speeches and language are molded for the variables in the social system.

This is an attempt of giving a wide vision to Public Relations, relating it to its similar areas and, mainly, to the essential paper that the art of the argument checks it.

 

 

Key-words:

Public Relations – rhetoric - language - culture – values – human relationship – mass society -  power

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RESUMEN

 

 

Este trabajo presenta una reflexión sobre la influencia de la retórica en la teoría de las Relaciones Públicas. Siendo la retórica un instrumento de la semiótica y de la lingüística, proferida en las relaciones humanas de una sociedad de masa, adquiere características peculiares del medio en que se establece. Así como las Relaciones Públicas, la retórica movimientase en un medio cultural heterogéneo como herramienta de poder para la legitimación de sus discursos y la polarización de sus intéreses.

La comunicación es necesaria en las relaciones humanas para difundir valores, concretizar la democracia social y disipar los conflictos inminentes de la sociedad plural través de la comprensión mutua. Las Relaciones Públicas tienen una función política de administrar, mediar y mismo criar las interfaces del hombre social, que necesita de esta iteración para confirmarse en la sociedad. Da la misma forma que las relaciones humanas, el lenguaje, el logos y la estética de los discursos retóricos son moldados por las variables do sistema social.

Esta pesquisa es una tentativa de dar una visión amplía de las Relaciones Públicas, relacionándolas a sus áreas afines y, principalmente, al papel esencial que la arte de la argumentación  os confiere.

 

 

 

 

Palabras-clave:

Relaciones Públicas – retórica – lenguaje – cultura – valores – relaciones humanas – sociedad de mesa – poder

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

 

 

INTRODUÇÃO ................................................................................................ 10

 

1.   A RETÓRICA

1.1. A retórica segundo Perelman ...................................................................14

1.2. As contribuições da semiótica ................................................................. 20

1.3. Argumentação e discurso......................................................................... 28

1.4. As paixões e os valores ..........................................................................  36

 

2.   COMUNICAÇÃO, RELAÇÕES PÚBLICAS E RETÓRICA

2.1. A interface entre a comunicação, Relações Públicas e retórica .............. 42

2.2. Uma comunicação para a sociedade de massa ...................................... 47

2.3. O discurso nas relações humanas e a retórica das Relações Públicas .. 50

2.4. Retórica versus Relações Públicas ......................................................... 56

 

 

3.   RETÓRICA, RELAÇÕES PÚBLICAS E CULTURA

3.1. Linguagem, comunicação e cultura ......................................................... 64

3.2. Cultura, poder e a retórica das Relações Públicas .................................. 70

3.3. Contribuições da retórica para análise da imagem política atual ............ 77

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 86

OBRAS CONSULTADAS  ............................................................................. 90

NOTAS ........................................................................................................... 95

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

 

Este trabalho contempla uma exigência de conclusão do curso de Gestão Estratégica Organizacional e Relações Públicas da ECA/USP e visa estudar a importância da arte da argumentação para a teoria de Relações Públicas. Explorar um lado teórico e multidisciplinar da atividade, para que se possa, cada vez mais, contribuir para o aprofundamento e reflexão sobre a profissão. Tem como objetivo verificar a influência de conceitos e fundamentações da retórica clássica e atual no processo de legitimação do discurso da atividade de Relações Públicas através de uma pesquisa inicial de abrangência panorâmica e aberta, em que não se tomará como verdade apenas uma teoria ou autor. Nas relações humanas, este profissional da comunicação é um agente motivador da interface social e fomentador de valores que se encontram inseridos em uma sociedade cultural, que tem necessidade de intermediação, gerenciamento e humanização dos relacionamentos.

 

É de grande valia para o estudo estrutural da teoria da comunicação, e conseqüentemente, das Relações Públicas, levar em consideração a interdisciplinaridade da área. Suas contradições, ambigüidades e as várias áreas que contribuem para fazer da comunicação o que ela é hoje: plural e rica em possibilidades de pesquisa que revelam sua micro e macroestrutura. São disciplinas como a psicologia, história, economia, administração, filosofia, sociologia, antropologia e a lingüística. Além de interagirem, acrescentam valiosos conceitos para uma base mais sólida das ciências da comunicação; e o ato de estudá-la, questionando as linhas de convergência, não proporciona apenas um esclarecimento de fenômenos ou de conceitos, mas também estabelece a ampliação do campo de pesquisa e o enriquecimento da abordagem.

 

O primeiro capítulo aborda aspectos teóricos conceituais de retórica e semiótica, contextualizando e apresentando uma noção primeira da importância do discurso retórico para o diálogo interpessoal. São apresentadas as contribuições de Pierce, Saussure, Eco, Jakobson e, principalmente, da nova retórica de Perelman A dialética e a classificação de retórica persuasiva pelo logos e a estética pela emoção representam as diversas manifestações da linguagem e do pensamento humano. Nesta fase são valorizados, principalmente, aspectos da lingüística e da filosofia que colaboram para a reflexão sobre a argumentação, o discurso, a semiótica e a teoria aristotélica das paixões.

 

O segundo capítulo apresenta conceitos e fundamentações da Teoria da Comunicação e das Relações Públicas relacionadas com aspectos da linguagem, da retórica, dos relacionamentos humanos e da sociedade de massa. Trata-se de uma abordagem rápida das diversas teorias de Relações Públicas, enfatizando a função política e as relações humanas que colaboram para a reflexão sobre a influência da retórica no discurso comunicacional da sociedade. Uma sociedade de massa imbuída de pluralidade e do contrato social para se estabelecer de modo adequado nos relacionamentos humanos. O papel da linguagem e do pensamento social, através dos argumentos retóricos, legitima os valores difundidos no discurso do profissional de comunicação perante a sociedade de massa.

 

O terceiro capítulo trata de uma relação entre a retórica, as Relações Públicas, o poder e a sociedade brasileira inserida num contexto de democracia, diversidade cultural e crise política. É importante considerar a cultura e o exercício da política como um todo complexo, compreendidos através de um compartilhamento de símbolos lingüísticos, sociais, políticos, ideológicos e até mesmo fixados numa estrutura sistêmica, conforme assinalou J. Derrida (apud KRISTEVA, 1968). O estudo do poder nas argumentações dos relacionamentos sociais e da cultura contribuirá para legitimar a comunicação quando esta consegue desprender-se de conceitos e arquétipos, tanto sobre organizações, quanto o comportamento humano. Considerando a multiplicidade antagônica estabelecida no sistema panorâmico atual, é necessário atribuir um sentido, uma direção e fundamentar o “homem situado no tempo, no espaço e no imaginário” (ZAOUAL, 2003, p. 100).

 

O método empregado para realização deste trabalho é o monográfico, com pesquisa exploratória, utilizando técnicas de pesquisa bibliográfica e documental. Para seu desenvolvimento, foram consultados, principalmente, os seguintes autores: Chaïm Perelman (1997), Aristóteles (2000), Jakobson (2003), Mauro Wolf (2003) e Roberto Simões (1995).


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Os homens não são guiados pelos fatos, mas pelas palavras”.

 Tolstoi

 


 

 

 

 

 

 

 

1.   A RETÓRICA

 

 

 

1.1.   A RETÓRICA SEGUNDO PERELMAN

                                                         

 

O estudo da língua foi dividido pelos clássicos em dois campos de reflexões. O primeiro foi a retórica, que trata do discurso exercido pela eficácia. O segundo era o domínio da lógica filosófica, denominado posteriormente de gramática tradicional. Apesar dos gregos, naquela época, não considerarem a gramática como disciplina, os estudos gramaticais durante séculos foram embasados por estas questões da denominação em Platão e pelas categorias aristotélicas (GUERRA, s.d.).

 

Mais tarde, durante o século XVII, a gramática se constituiu como método através da Gramática de Port-Royal, de Arnauld e Lancelot, relacionada à idéia grega de língua como expressão da razão:

 

 

... tendo os homens necessidades de signos para exteriorizar tudo o que se passa em seu espírito, é indispensável que a distinção mais geral seja que uns signifiquem os objetos dos pensamentos e outros a forma e o modo de nossos pensamentos... (Arnauld e Lancelot, 1992, p. 29, IN: GUERRA, [s.d.])

 

 

 

Percebemos, desde os estudos fundadores, proposições e conceitos fundamentais para uma análise consistente sobre linguagem nas organizações. Algumas dessas proposições merecerem ser destacadas; sublinharemos aqui dois pontos relevantes, o primeiro referente à própria concepção de língua como expressão do pensamento.

 

Durante muito tempo as questões ligadas à retórica foram esquecidas. Só a partir da segunda metade do século XX, autores como Tzvetan Todorov, Umberto Eco, Heinrich Lausberg, Chaïm Perelman, Roland Barthes e outros se preocuparam em resgatar as idéias clássicas, principalmente sobre a persuasão e o convencimento (GUERRA, s.d.). Tanto a retórica clássica quanto a chamada nova retórica trazem aspectos imprescindíveis para a reflexão da Comunicação Social e das Relações Públicas. Alguns conceitos como a criação de um ethos e de um pathos por um logos - o próprio discurso - foram importantes para compreensão dos processos comunicacionais e retóricos.

 

Conforme Perelman, (1999) a retórica é uma ciência relativa, pois sua conceituação vai de acordo com cada estudo filosófico. Ao contrário da ética, a retórica é considerada uma ciência abstrata. Platão e Aristóteles, por exemplo, tinham pontos marcantes de discordância com relação à retórica. O primeiro condenava a retórica em nome da moral e o segundo considerava que ela própria não era moral nem imoral. São divergências que colaboram para ratificar as qualificações multidisciplinares, pluralistas, teóricas e pragmáticas da retórica.

 

Transfigurada através da história, a retórica foi por muito tempo depreciada, condenada e tratada como uma “disciplina secundária e perigosa” (PERELMAN, 1999). Em razão disto, o termo “retórica” assumiu sentidos pejorativos, distintos e, até mesmo, divergentes entre si. Nos anos 60, os acadêmicos redescobriram o conceito “retórica” adotando duas vertentes classificatórias. A primeira, considera a retórica uma arte de argumentar e convencer através do raciocínio lógico. Cada um dos adversários busca persuadir o outro mostrando que seus argumentos são os verdadeiros e melhores. Nesse tipo de retórica predomina a discussão entre idéias controversas, a tentativa de convencimento e, por que não, de uma visão um tanto egocêntrica e autoritária. Não ouvir o adversário e ignorar suas opiniões pode provocar um grande malogro na comunicação, deturpando códigos e fatores necessários para a compreensão mútua do relacionamento interpessoal.

 

Quando regida pelo logos, a retórica torna-se como que obcecada pela solução “ganha-perde”, típica de fracassadas experiências de negociações sociais. Ela provoca o conflito, estimulando os participantes do diálogo ao exercício de poder e da discussão. Desta forma atuam políticos, juízes e religiosos. Nos discursos do Congresso Nacional, conforme será visto no último capítulo, também predomina tal qualidade retórica.

 

O outro conceito revelado nos anos 60 pressupõe uma abordagem mais literária e emotiva da retórica, pois a considera como um estudo de estilos e figuras. Sua informação é compreendida pelos sentidos e pelo conhecimento através do sensível, intuitivo e primitivo. Esta categoria é denominada estética e provoca significados um tanto obscuros e complexos, pois é baseada, essencialmente, nos sentidos e na emoção. João Ubaldo Ribeiro escreveu em sua coluna no jornal Estado de S. Paulo (21/08/2005), exatamente sobre essa complexidade que o sentido do texto e suas entrelinhas podem provocam no leitor. Geram surpresas ao escritor, pois são interpretados de várias maneiras e tomam rumos distintos do esperado. Nesse estilo retórico, a tendência literária busca desenvolver o aspecto artístico do discurso, focando o conteúdo argumentativo no estilo e na expressão (PERELMAN, 1999, p.69).

 

Tanto a categoria semântica/racional, quanto a estética/emotiva, não se sustentam sozinhas, nem se isolam uma da outra. Na prática, o processo retórico ocorre sem linha demarcatória nítida entre o conhecimento pela razão e o conhecimento pelos sentidos (NETTO, 2003, p. 165 - 169).

 

A retórica clássica – também conhecida com a arte da persuasão -, não era considerada um artifício de raciocínio, pois seus primeiros princípios eram incontestáveis, como os princípios lógicos de identidade e da não-contradição. A retórica não era concedida por “silogismos apodíticos”, ou melhor, premissas determinadas e fechadas de discussão. Hoje em dia, é justamente esta a base para o estudo teórico da retórica. Concebê-la aberta para as multiplicidades de premissas e argumentações é fundamental. Esta nova estrutura, mais abrangente e sinuosa, é, muitas vezes, confundida com a dialética.

 

Formados por uma complexa produção sígnica, envolvendo a escolha de premissas prováveis, os silogismos retóricos estimulam as figuras. São essas duas partes, a discursiva lógica e as figuras, que compõem a retórica. Pode-se dizer que a retórica é constituída por uma semiótica da interação convencional. A fundamental condição desse tipo de interação é que “as regras de conversação sejam respeitadas” e que sejam “reconhecidas a parcialidade das premissas e suas reatividades das circunstâncias” (ECO, 2002, p. 235). Com isso, buscam-se conceitos para explicar as idéias estruturadas como premissas. As premissas geram a comunicação. Tanto na comunicação de estados emocionais como na de estados mentais, quem fala e quem escuta passa por uma transmissão que experimenta as similaridades de emoções ou de idéias, dependendo da extensão de suas experiências de vida (TONDO, 1973, p. 32).

 

A retórica se distingue da lógica, segundo Perelman, quando ela se ocupa, não com a verdade abstrata, categórica ou hipotética, porém com a adesão. Adesão, segundo o novo dicionário Aurélio Ferreira (2002), é sinônimo de assentimento, aprovação e concordância. O objetivo da retórica é “produzir ou aumentar a adesão de um determinado auditório a certas teses e seu ponto inicial será a adesão desse auditório a outras teses” (PERELMAN, 1999, p.70), como se explicará ao longo do trabalho.

 

Além disso, a lógica se distingue da retórica, pois sempre raciocina no interior de um dado sistema, supostamente aceito, enquanto a argumentação retórica possibilita que tudo possa ser questionado. Na lógica, a argumentação é coerciva; na retórica, não há essa repressão. Aderir ou não a uma proposição é de total liberdade do indivíduo que recebe a mensagem. Ele não é obrigado a condescender em razão de uma incoerência à qual teria sido coagido. É importante frisar que a argumentação retórica não é coerciva, pois não se desenvolve no interior de um sistema cujas premissas e regras de dedução são unívocas e fixadas de maneira invariável. (PERELMAN, 1999, p. 77)

 

A pesquisa com clássicos da antiga filosofia contribui grandiosamente para clarificar as bases da teoria e dos conceitos pertinentes, os quais foram modificados com o passar dos anos e convencionados de uma maneira um tanto superficial. Para abstrair modismos e preferências individuais, Aristóteles, através da retórica clássica, emprega os argumentos em elementos estáveis e tradicionais, o que permite estabelecer um importante paralelo entre a articulação dos argumentos e do estilo numa mesma função (apud REBOUL, 2004, p. XIV).

 

Para Olivier Reboul, a “retórica é a arte de persuadir pelo discurso” (2004, p. XIV), sendo o termo “discurso” uma produção verbal, escrita ou oral, com uma ou mais frases, compostas de começo, meio, fim e que tenham certa unidade de sentido. Segundo ele, o que não visa persuadir, não é retórico, como são os casos de poemas líricos, melodrama, comédia, contos populares e piadas. Apenas interessa à retórica o discurso persuasivo. Ela deve ser, para Aristóteles (2003), uma rigorosa técnica de argumentar, mas distinta da técnica que caracteriza a lógica.

 

Para explicar melhor, é necessário primeiro esclarecer os termos a serem utilizados a seguir. Silogismo é uma dedução formal tal que, postas duas proposições, chamadas premissas, delas, por inferência, se tira uma terceira, chamada conclusão (FERREIRA, 2004, p. 1846). Lógica é um conjunto de estudos que visa determinar os processos intelectuais que são condições gerais do conhecimento verdadeiro, uma coerência de raciocínio e de idéias (FERREIRA, 2004, p.1225).

 

Elucidados tais conceitos, apresentar a denominação de lógica, qualificada por Aristóteles, torna-se mais compreensível. Para ele, a lógica serve-se de silogismos a espera de obter uma manifestação indiscutível. Já no processo retórico, são utilizados esses silogismos, que, embora convincentes, podem não ser aceitos pelo ouvinte. A retórica tem essa “liberdade”, essa flexibilidade para permitir que o indivíduo acolha ou não premissas de outrem. E porque não classificá-la “democrática”? Ademais, na retórica é possível serem aceitas, concomitantemente, teses contrárias uma à outra. Tanto que, no raciocínio retórico aristotélico, o papel da diversidade de opiniões é de grande relevância, não sendo aconselhável a utilização exclusiva de verdades universais. Estes silogismos compostos de premissas são denominados, por Aristóteles (2003, p. XIII), de entimemas.

 

Já Platão desprezava a retórica e exaltava a dialética. Para ele, a dialética era o método de excelência da filosofia, o único que permitia alcançar o absoluto (apud PERELMAN, 1999, p. 34). Logo, Aristóteles consegue separar a dialética (lugar da argumentação) da ciência, cuja base é lógica, e produz uma teoria da argumentação e da retórica codificando a lógica e sistematizando a retórica. Ou melhor, a retórica passa a ser vista como uma possibilidade para sustentar as diversas opiniões e fazer com que elas sejam admitidas por outros. A retórica preza por essas opiniões, e não, pela verdade (PERELMAN, 1999, p. 66).

 

A necessidade dos homens de trocar opiniões, produzir argumentação e buscar as verdades universais faz referência à indigência dos interlocutores sociais em encontrar os significados das expressões cotidianas. Toda mensagem compreende pelo menos um plano da expressão, segundo Barthes (1988, p. 129) e é pronunciada através de significantes, significado e signos. O ser humano se utiliza da palavra, e conseqüentemente, de uma língua, para expressar um pensamento e formar valores, crenças, mitos, conceitos e estereótipos que formalizam o discurso da sociedade. Esse discurso, com um conjunto de fatores culturais e sociológicos, cria uma imagem única, um todo referente àquela parte, àquele nicho, àquele sistema particular. Na verdade, o que se quer colocar é que, de particular, esse grupo social só tem o conceito de privado e restrito geograficamente, pois se trata da manifestação mais pública possível, como resultado coletivo de manifestações individuais e privadas.

 

 

1.2.    As contribuições da semiótica

 

 

 

 

Se não bastasse a complexidade da teoria semiótica, há muitas linhas de pesquisa e vertentes que a estudam. Nesta tentativa de lançar mão da semiótica para contextualizar e embasar a relação das Relações Públicas com a retórica, não se assumirá nenhuma doutrina específica. Tanto o pensamento de Pierce quanto de Saussure, Eco e Jakobson são colocados neste trabalho de forma linear com o desenvolvimento dos tópicos pertinentes à pesquisa. A preocupação aqui é com a visão geral sobre o assunto e com algumas contribuições teóricas em especial, e não com o aprofundamento das facções das teorias. As idéias do filósofo Jakobson têm destaque neste trabalho, pois se presume que elas possuem um viés mais contundente, abrangente e ponderado da semiótica.  

 

Dentro deste conceito panorâmico, tem-se o universo do pensamento que constrói a comunicação e o diálogo. Pode-se dizer que todo pensamento é visto sob uma forma de diálogo, que pode ser explícito ou implícito. Pierce (apud NETTO, 2003, p. 213) encarava sua teoria como uma análise comunicacional, pois considerava que esses diálogos explícitos, manifestados entre duas ou mais pessoas, ou os implícitos, através do pensamento ou monólogo interior, são expressões da relação triática entre o signo, o objeto e o interpretante. Esta terminologia varia dependendo da teoria e do autor.

 

Conforme foi elucidado anteriormente, a retórica está baseada no diálogo entre os interlocutores, que avançam passo a passo o raciocínio, comprovando teses e confirmando as concordâncias e discordâncias entre os homens. “Só se passa de uma tese para a seguinte quando a adesão daquele a quem se dirige garante a verdade de cada elo da argumentação” (PERELMAN, 1999, p. 47). O argumento só se faz verdadeiro e presente para o interlocutor quando compreende tal raciocínio lógico e quando compartilha deste processo. 

 

Em uma discussão, dois adversários (interlocutores), apesar de cada um impor suas idéias, buscando a persuasão e o convencimento do outro, podem ver suas opiniões modificadas em conseqüência da argumentação de seu parceiro. Chegam a um compromisso que será tão diferente da tese de um quanto do outro, o que não pode acontecer se o raciocínio é baseado no interior de um sistema conclusivo e homogeneamente fixado. Esse compromisso demonstra o caráter lógico e coercitivo da argumentação, pois retrata a imposição de premissas e valores visando o triunfo. Desta forma, os interlocutores admitem a modificação de seus juízos de valor (PERELMAN, 1999, p. 77- 79).

 

Durante o diálogo crítico tenta-se o tempo todo provar teses. Uma questão do interlocutor ou uma hipótese pode ser colocada em teste, mesmo que tenha sido o próprio sujeito o prenunciador, apenas para confirmar se o ponto não é incompatível com outras teses argumentadas e afirmadas. “O raciocínio dialético, em Aristóteles, é aquele cujas hipóteses iniciais são racionais, ou seja, aceitas pelo senso comum, pela grande maioria” (PERELMAN, 1999, p. 7). Platão considera a dialética parte do sensível para ascender às idéias e, em seguida, recua ao sensível a fim de explicá-lo. Por isso, Platão avalia a dialética não sendo apenas um jogo de Idéias puras, como na matemática” (REBOUL, 2004, p. XX).

 

Um discurso diferente, como é o caso da utilização de ênfases, metáforas e hipérboles, deve ser feito pelas figuras de pensamento e pelas figuras de discurso, que se baseiam em mecanismos fonológicos e sintáticos. No jogo retórico são traçadas conexões imprevisíveis, que revelam contradições férteis e provocam novas conexões, permitindo percorrer toda a área do Campo Semântico Global, pondo desnuda à sua estrutura “topológica” (ECO, 2002, p. 240). Quando o processo de comutação entre seleções contextuais e circunstanciais se sobrepõe e ocorre de forma rápida, os pontos distantes se conectam entre si e não se consegue perceber claramente os passos que, no interior das cadeias sêmica, unem os pontos aparentemente desconexos. Desta forma, a criação retórica é, para o destinatário o efeito de uma percepção, quase inexplicável. É uma revelação e uma iluminação. Para o orador, no entanto, a retórica é percebida com extrema rapidez pelo circuito das ligações e pelas relações estabelecidas, que são organizadas pela semântica. O processo retórico transforma-se numa estrutura autorizada de conhecimento, ou, pelo menos, uma forma de “pôr em crise o conhecimento adquirido”. (ECO, 2002, p. 241)

 

A retórica é uma ferramenta fundamental para consolidar as relações interpessoais estabelecidas na sociedade. Através da língua, da linguagem e da cultura, são constituídas as dimensões do pensamento e da razão. O pensamento racional, segundo os clássicos gregos, formalizada a língua, é dividido em dois campos: a retórica e o domínio da lógica filosófica (GUERRA, s.d.). Essa língua dará forma aos valores, crenças, objetivos organizacionais e ideológicos da sociedade. Saussure considera a língua um produto do espírito coletivo dos grupos lingüísticos (1998, p. 29).

 

São as palavras que constituem os discursos sociais, as retóricas e as manifestações da linguagem humana e formam ideologias singulares e características peculiares de cada sociedade. Todas as manifestações da linguagem e expressão humana estão inter-relacionadas com questões multidisciplinares. Essa linguagem, segundo Sausurre (1989, p. 34), tem um lado individual e um lado social, e não se pode conceber um sem o outro. Além disso, as outras ciências vizinhas, como psicologia, antropologia, gramática normativa e filologia também se utilizam da língua como um de seus objetos. Hay que situarse desde el primer momento en el terreno de la lengua y tomarla por norma de todas las demás manifestaciones del lenguaje” (SAUSURRE, 1989, p. 35).

 

A língua, quando reduzida a seu princípio essencial, pode ser considerada por alguns uma nomenclatura, enquanto que o signo lingüístico une um conceito e uma imagem acústica, e não, uma coisa e um nome, explica Saussure (1989, p. 102). Sem o signo, a comunicação seria praticamente inviável. É ele que relaciona os enunciados e seus significados, que conecta um conceito a uma imagem. Esta última consiste na psique do som, na representação dos sentidos provocados por esse som. Essa representação é sensorial, e se pode chamar a imagem acústica de “material”, apenas nesse sentido, pois ela faz oposição ao outro termo de associação, o conceito, geralmente mais abstrato.

 

Essa teoria que designa o signo como uma combinação entre um conceito e uma imagem acústica, foi substituída, ainda na teoria saussuriana, por outros termos: significado e significante, respectivamente. A qualificação foi concebida tendo em vista que a nova acepção tem a vantagem de enfatizar a oposição entre as palavras tanto entre si como na totalidade de que formam parte. E a conotação de signo continuou com a mesma terminologia. O signo implica uma idéia de palavra falada e uma realização da imagem interior em um discurso. É a totalidade resultante da associação de um significante e um significado. Se for considerado arbitrário o laço que une esses dois termos, logo, “o signo lingüístico é arbitrário” (SAUSURRE, 1989, p. 104).

 

O valor que é dado para a utilização da linguagem, como meio de transmitir signos e provocar significado, será determinante no processo comunicacional. As palavras que associam os fragmentos e atribuem o sentido requerido, obedecem às convenções sociais que todos integrantes deste meio devem compartilhar.

 

Erroneamente se emprega a palavra símbolo no lugar de signo lingüístico ou significante. Porém, esta concepção não leva em conta que símbolo conserva um rompimento de vínculo natural entre o significante e o significado, pois não é nunca completamente arbitrário e vazio. Ou seja, o símbolo de justiça, da balança, poderia ser trocado por qualquer outro símbolo, como um carro ou uma flor. São instituições humanas como os costumes, as leis e as relações naturais das coisas, adequadas ao meio social e aos fins esperados, que estipulam as associações de uma idéia qualquer com uma seqüência qualquer de som.

 

O estabelecimento de uma distinção entre as “qualidades materiais” (o significante de todo signo) e seu “intérprete imediato” (o significado), foi apresentado por Pierce e Saussure. Através das diferenças que se revelam na relação entre o significante e o significado é possível distinguir três variedades essenciais de signos. O primeiro é o ícone, que opera, antes de tudo, pela semelhança de fato entre seu significante e seu significado. O segundo é o índice, que atua, primeiramente, pela contigüidade de fato, estabelecida entre seu significante e seu significado. O terceiro, e último, é o símbolo, que age, antes de tudo, por contigüidade instituída, apreendida, entre significante e significado (JAKOBSON, 2003, p. 100 -101).

 

Platão já dizia que a linguagem liga a forma ao conteúdo “por natureza”. Segundo a teoria de Saussure, que faz uma análise lingüística inerente a todo sistema idiossincrático, é proibido que se invoquem as diferenças entre som e significado ocorridas em razão do “fator espaço ou tempo em apoio do caráter arbitrário da conexão entre os dois constituintes do signo verbal” (JAKOBSON, 2003, p. 103). Saussure afirma que é fundamental para o ideal do procedimento semiológico que os signos sejam considerados inteiramente arbitrários, enquanto que Pierce se preocupava mais em esclarecer o lugar desempenhado pelo acúmulo das três funções, com distintos níveis, em cada um dos três tipos de signos, especialmente aos componentes indicativo e icônico dos símbolos verbais, relacionados ao argumento de que “os mais perfeitos dos signos” são aqueles nos quais o caráter icônico, o caráter indicativo e o caráter simbólico “estão amalgamados em proporções tão iguais quanto possível” (JAKOBSON, 2003, p. 104).

 

O uso natural das diversas linguagens, a evolução e a transformação dos códigos, a comunicação estética, os vários tipos de interação comunicativa e o uso dos signos para mencionar coisas e estados do mundo, além de muitos outros, fazem parte de um grupo de fenômenos estabelecidos e estudados pela teoria da função sígnica. Eco (2002, p. 2) esclarece a distinção entre “significação” e “comunicação”, colocando que uma “semiótica da significação” se desenvolve a partir da teoria dos códigos, ao passo que uma “semiótica da comunicação” corresponde à teoria da produção sígnica.

 

Parte-se da premissa que “a semiótica estuda todos os processos culturais como processos de comunicação” (ECO, 2002, p. 5) e que esses processos subsistem por pertencerem a um sistema de significação. A partir de então, define-se o processo comunicativo como a passagem de um sinal (não necessariamente um signo) de uma fonte, através de um transmissor, ao longo de um canal, até um destinatário. O processo de significação, por sua vez, somente existe quando há um código, ou seja, um sistema de significação, que irá unir elementos presentes e ausentes. “Todo processo de comunicação entre seres humanos pressupõe um sistema de significação como uma condição necessária” (ECO, 2002, p. 6). Portanto, é possível haver uma semiótica da significação que seja independente de uma semiótica da comunicação. Entretanto, é impossível conceber uma semiótica da comunicação que seja independente de uma semiótica da significação.

 

O processo de comunicação se estabelece quando as possibilidades de um sistema de significação são utilizadas para produzir “fisicamente” expressões e para outros fins práticos. Porém, quando os requisitos para a execução de um processo são socialmente reconhecidos e precedem o próprio processo, então eles devem ser registrados como regra e podem ser considerados por uma teoria da produção física dos signos depois de terem sido anteriormente codificados (ECO, 2002, p. 2).

 

A teoria semiótica é capaz de explicar qualquer caso de função sígnica em termos de sistemas subjacentes correlatos de um ou mais códigos. Esta teoria compreende uma teoria dos códigos e uma teoria da produção sígnica.

 

Para Eco (apud WOLF, 2003, p. 115), é necessário que, no momento da transmissão e no momento da recepção, se faça referência a um mesmo código, para que o destinatário possa compreender corretamente o sinal. O código, segundo Eco,

 

 

É um sistema de regras que confere a determinados sinais um dado valor. Dizemos valor e não “significado” porque, no caso de um aparelho homeostático (relação entre duas máquinas), não se pode dizer que a máquina destinatária “compreende o significado” do sinal (a não ser em sentido metafórico): essa máquina foi preparada para responder de uma determinada maneira a uma determinada solicitação.

 

 

O código não é apenas um sistema sintático, que organiza os sinais (significantes). Ele não contempla, na sua atribuição própria, o problema do significado da mensagem, ou seja, a dimensão da amplitude comunicativa. O código une um sistema de significantes a um sistema de significados. A informação se distingue do significado, com o valor conferido a partir de um código, que faz corresponder aos elementos informativos outros valores (associados por convenções) que, portanto, não são transmitidos (WOLF, 2003. p. 117).

 

Conforme Jakobson (2003, p. 39 - 40), todo signo lingüístico implica dois modos de arranjo:

 

1)     A combinação. Todo signo é composto de signos constituintes e/ou aparece em combinação com outros signos. Isso significa que qualquer unidade lingüística serve, ao mesmo tempo, de contexto para unidades mais simples e/ou encontra seu próprio contexto em uma unidade lingüística mais complexa. Segue-se daí que todo agrupamento efetivo de unidades lingüísticas liga-as numa superior: combinação e contextura são as duas faces de uma mesma operação.

2)     A seleção. Uma seleção entre termos alternativos implica a possibilidade de substituir um pelo outro, equivalente ao primeiro num aspecto e diferente em outro. De fato, seleção e substituição são as duas faces de uma mesma operação.

 

 

Saussure percebeu o papel principal que estas duas operações desempenhavam, entretanto apenas reconheceu a segunda combinação. Considerando os dois modos de arranjo, descritos acima, como sendo a combinação e a seleção, Saussure estabeleceu que o primeiro “aparece in praesentia: baseia-se em dois ou vários termos igualmente presentes dentro de uma série efetiva”, enquanto o segundo “une os termos in absentia como membros de uma série mnemônica virtual”. Ou seja, a seleção (substituição) está relacionada com entidades associadas no código, mas não na mensagem dada. E na combinação as entidades estão associadas em ambos ou somente na mensagem real (apud JAKOBSON, 2003, p. 40). 

 

Já segundo Charles Pierce (apud JAKOBSON, 2003, p. 41), duas referências servem para interpretar o signo: uma se atém ao código e a outra ao contexto, não importando se o signo está “codificado ou livre”. Independentemente do caso, o signo está relacionado com outro conjunto de signos lingüísticos, através de um sistema em que o signo está numa relação de alternação no caso de estar codificado, ou de justaposição se estiver livre. Uma dada unidade significativa pode ser substituída por outros signos mais explícitos do mesmo código, através da revelação de seu significado, à medida que seu sentido contextual é determinado por sua conexão com outros signos no interior da mesma seqüência.

 

Esta relação interna se dá quando há uma equivalência entre os símbolos utilizados pelo remetente e as mensagens que o destinatário conhece e interpreta. Além desta relação interna através de códigos, a mensagem é constituída por uma relação externa, através do conteúdo da mensagem e do meio cultural ao qual pertence (JAKOBSON, 2003, p. 41). A linguagem utiliza esses dois modos de relação para se materializar através do discurso e da retórica. Para a comunicação interpessoal se efetivar de forma legitimada, os argumentos de todos os interlocutores devem fazer o mesmo sentido, ou seja, possuir o mesmo significado. Sem essa relação externa de proximidade e a relação interna de equivalência, a mensagem pode até ser percebida pelo receptor, porém, dificilmente, será compreendida.

 

 

 

1.3. Argumentação e discurso

 

 

A semiótica colabora com o discurso em praticamente todos os sentidos, pois são os signos, significantes e significados que formam os argumentos da oratória. A semiótica está no nível de articulação e de análise, na coerência discursiva, enquanto permanência implícita do saber do sujeito, e nem toda estruturação sociolingüística adotada pelo discurso. Segundo Greimas (1981, p. 3), a ”lingüística é a mais elaborada das semióticas”. O conhecimento da semiologia se manifestará através de um processo e não mais de um sistema, conforme proferido anteriormente. Benveniste afirma que o discurso é “a língua enquanto assumida pelo homem que fala” (apud GREIMAS, 1981, p. 4). Esse homem é membro de uma sociedade de cultura, tradição, bagagem de conhecimentos e de uma interpretação já moldada da realidade. Tanto que o homem logo começa sua vida inserido num mundo de interpretações.

 

A natureza de um fenômeno ordenado por signos denota que as relações sociais são primeira e essencialmente relações entre signos. A sociologia é incapaz de apreender estes fatos, pelos métodos que lhe têm sido competentes (LIMA, 1996). “Todo o problema da semiologia (...) nos parece estar aí: continuar a formalizar os sistemas semióticos do ponto de vista da comunicação, (...) ou então abrir no interior da problemática da comunicação (que é inevitável a toda problemática social) esta outra cena que é a produção de sentido anterior ao sentido” (KRISTEVA, 1968).

 

O termo intertextualidade foi considerado por Júlia Kristeva para indicar a transposição de sistemas de signo. Para ela, o importante é o processo, é a passagem de um sistema significativo a outro. Um texto é sinônimo de um sistema de signos e “se constrói como um mosaico de citações: é a absorção e transformação de um outro texto” (apud DUARTE, 1997, p. 14). Assim, ela foca a noção de processo e cria o conceito de transposição.

 

Diferente dessa visão de assimilação e de transformação da intertextualidade, McLuhan concebe sua teoria independente de quaisquer questões ideológicas ou de intencionalidade dos enunciadores, pois o que determina o sentido da mensagem para ele é o meio (apud DUARTE, 1997, p. 14). Ele sustenta que toda intertextualidade entra em conflito cada vez que um novo meio é criado e posto em funcionamento através dos argumentos. Assim foi com a Internet, os comunicadores instantâneos e as interpretações simultâneas. No momento em que o intérprete reproduz simultaneamente um discurso, precisa estar muito bem treinado para transmitir com qualidade e precisão a oratória do palestrante. Caso contrário, a dificuldade de compreensão do discurso pelo auditório provocará crise na intertextualidade.

 

Os argumentos podem ser articulados de forma espontânea ou planejada, segundo Netto (2003, p. 61 – 62). Nas palestras e discursos políticos essa diferença pode ser percebida nitidamente. Independente da forma como é pronunciado, um argumento não deixa de ser um signo de razão, pois ele representa seu objeto através das leis de um silogismo. Ou seja, é um signo de lei que tende a ser verdadeiro quando corresponde a um juízo, a uma passagem de certas premissas para certas conclusões. É lei fundamental da retórica que o orador nunca está sozinho, portanto exprime sempre em concordância com outros oradores ou em oposição a eles, sempre em função de outros discursos (REBOUL, 2004, p. XIX) e em função de seu público ouvinte.

 

A argumentação visa o estudo das técnicas discursivas em busca de ganhar ou reforçar a adesão dos pensamentos às teses apresentadas. Como visto nos exemplos acima, toda argumentação pressupõe um orador, aquele que apresenta um discurso; um auditório, aquele a quem é dirigida a argumentação; e uma finalidade, a adesão a uma tese ou o crescimento da intensidade da adesão. Para se alcançar com êxito esta finalidade, fazendo com que o auditório aceite os argumentos, deve-se gerar uma disposição à ação, podendo causar ainda uma ação imediata no auditório, o qual pode identificar-se com o orador ou não, deliberadamente (PERELMAN, 1999, p. 324).

 

Em lógica, a argumentação é coerciva, uma vez provada uma proposição todas as outras provas são supérfluas. Conforme visto anteriormente, a retórica deve funcionar ao contrário dessa lógica coercitiva, adotando uma argumentação ampla e vasta, o que pode provocar um grave problema para os interlocutores. Assim, a argumentação retórica se torna muito menos precisa do que as argumentações lógicas. Quando não é formal, toda a argumentação retórica insinua a ambigüidade e a confusão dos termos em que se baseia. Essa ambigüidade pode ser reduzida à medida que se aproxima do raciocínio formal. Porém, por não provir de uma linguagem artificial, tal como pode resultar do acordo de um grupo de cientistas especializados numa certa área do conhecimento, a ambigüidade sempre conservará sua força e ação. Portanto, a argumentação retórica necessita de tal dubiedade, enquanto a argumentação coerciva se atém à univocidade, comportando uma forma de interpretação que elimina toda imprecisão (REBOUL, 2004, p. 79 - 80).

 

Como em retórica, a razão e os sentimentos são inseparáveis. Pode-se afirmar que as razões de um discurso ser persuasivo são duas: uma, de ordem racional e, outra, afetiva. A razão legitima-se através da argumentação, que pode ser através do raciocínio silogístico (por entimemas) ou de exemplos (mais afetivo), enquanto que o discurso afetivo em si é, por um lado, o ethos, e, por outro, o pathos. O ethos é “o caráter que o orador deve assumir para chamar a atenção e angariar a confiança do auditório” e o pathos são as tendências, desejos, emoções do auditório das quais o orador poderá tirar partido. Também pode ser considerada de forma diferente esta classificação do discurso. Segundo Brutus Cícero (apud REBOUL, 2004, p. XVIII), há três tipos de categorização: docere (instruir, ensinar), que é o lado argumentativo do discurso; delectare (agradar), é o lado agradável e humorístico; e movere (comover), equivalente ao que abala e impressiona o auditório.

 

A argumentação existe como meio de prova distinta da demonstração (da apodicidade, segundo Aristóteles), porém não ocorre em estruturas afetivas e nos meios sensíveis de valores como a violência e a sedução (REBOUL, 2004, p. 112). Demonstração é provar por meio de um raciocínio concludente, é confirmar a argumentação manifestando, revelando e evidenciado suas premissas. Já a argumentação sustenta controvérsias, ou seja, ela não ratifica os argumentos. Entre a demonstração científica ou lógica e a ignorância pura e simples há todo um domínio da argumentação. Esta está próxima da evidência e ignorância, entre o necessário e o arbitrário, uma vez que estabelece um método de pesquisa e prova. Tanto quanto a dialética, a argumentação constitui um dos pilares da retórica. Ela pode ser definida como uma proposição destinada a levar à aceitação de outra proposição. A argumentação provém do argumento e é uma totalidade que só pode ser entendida em oposição a outra totalidade: a demonstração. Certos argumentos são demonstrativos, outros argumentativos. (REBOUL, 2004, p. 92).

 

A distinção entre a argumentação e a demonstração se calca ainda no propósito de que a primeira dirige-se a um auditório, se expressa em língua natural, tem suas premissas verossímeis, com progressão de acordo com o orador e suas conclusões são sempre contestáveis (REBOUL, 2004, p. 92). Um exemplo disso é a “oralidade” de um político que aumenta diante das massas. Além disso, quanto menor for o tempo que o político tiver para “tomar a palavra”, melhor será sua oratória, o que demonstra que o ethos e o pathos tendem a ir além do logos, dando oportunidade para surgirem os afetos, os valores, as paixões e as figuras  de estilo (PERELMAN, 1999, p. 97).

 

Assim, o discurso também persuade através de outros dois aspectos: o argumentativo e o oratório. A comunicação não-verbal do orador, compreendida pelos gestos, e a verbal, através do tom e inflexões da voz, são recursos oratórios que contribuem para agradar ou comover, além de serem também argumentativos, pois exprimem um contexto mais contundente e condensado. São utilizadas, neste caso, figuras de estilo, como a metáfora, hipérbole, antítese e a ironia (REBOUL, 2004, p. XVIII). No caso dos textos, esses recursos de estilo se aplicam de forma diferente da oral, pois na oral há um risco maior de esquecimento e desatenção do auditório. E para combater isso, somente se pode reter a argumentação através de procedimentos oratórios. Não é a toa que as chamadas “culturas orais” utilizam-se de repetições, aliterações, rimas, metáforas, alegorias e enigmas. A argumentação oral, em geral, é menos lógica e mais “oratória” que a escrita.  Esse valor insubstituível do discurso oratório pode ser confirmado na seguinte oração escrita: “Se pelo menos pudéssemos explicar pessoalmente!” (PERELMAN, 1999, p. 95).

 

As figuras de estilo existentes na forma escrita expressam-se simultaneamente dentro de uma estrutura livre (pois não somos obrigados a utilizá-lo) ou de uma estrutura codificada (pois cada figura possui uma composição conhecida, repetível e transmissível) (PERELMAN, 1999, p. 113). Dessa forma, se usadas as figuras, devem estar de acordo com o auditório, o qual as decodificam e experimentam suas sensações.

 

De tal modo, para o bom desenvolvimento da argumentação retórica é necessário que o orador dê valor e atenção aos receptores das mensagens. É relevante valorizar a adesão alheia, certificar-se de que a informação está sendo assimilada e comunicada com efetividade. Aquele que desenvolveu sua tese e aquele a quem quer conquistar devem formar “uma comunidade”, uma empatia, pois, assim sendo, há um comprometimento entre ambas partes por se interessar pela mesma questão (PERELMAN, 1999, p. 70).

 

Um conjunto de argumentações leva em consideração a personalidade do orador, que garante a seriedade da argumentação. Inversamente, ele também pode produzir uma argumentação fraca ou indelicada, diminuindo a credibilidade, legitimidade e poder discursivo do orador. ”O prestigio do orador só age na medida em que este consente em envolvê-lo. Um aumento de prestígio pode resultar do discurso, mas, a cada enunciado, uma parte desse prestígio está exposta ao risco” (PERELMAN, 1999, p. 75). Diferente da retórica lógica, em que a opinião alheia não interfere, o caráter do auditório e sua opinião em relação ao desempenho do orador têm importância fundamental para a argumentação retórica. “É impossível à argumentação retórica escapar à interação entre a opinião que o auditório tem da pessoa do orador e aquela que tem dos juízos e argumentos deste” (PERELMAN, 1999, p. 74).

 

 

Ao contrário, a utilização de um mau argumento na retórica, pode suscitar efeito trágico. Manifestar-se publicamente tomando partido de temas polêmicos pode comprometer a oratória e ocasionar um efeito exatamente contrário ao que se esperava. Por outro lado, enunciar um argumento que o auditório acha duvidoso pode prejudicá-lo e, por isso mesmo, comprometer-lhe toda a argumentação. Nota-se, portanto, o poder da palavra na dinâmica cultural da sociedade, além do aperfeiçoamento da linguagem, a qual é capaz de gerar entraves ou possibilidades conforme são utilizadas (CLEGG, s.d.).

 

Foucault delineia essa relação entre o poder da palavra, da linguagem social, da estrutura sígnica dos argumentos, da importância do orador (por ele denominado autor) e do ouvinte como elementos de procedimentos que permitem o controle do discurso. Segundo ele, “em toda a sociedade, a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade” (FOUCAULT, 2004, p. 8-9). Dentro desse contexto, políticos, religiosos e juízes, usam de modo privilegiado o discurso como uma ferramenta de poder. Para ele, o conceito de discurso é nada mais “do que a reverberação de uma verdade nascendo diante de seus próprios olhos” (FOUCAULT, 2004, p. 49). 

 

A filosofia de Foucault destaca fatores que “moldam” o discurso, através de jogos de limitações e exclusões. Primeiro, o autor expõe variáveis externas, como a vontade de verdade, a palavra proibida e a segregação da loucura. Através das palavras que se reconheceria a loucura do louco e justamente elas que alojariam o exercício da separação, pois não têm credibilidade e, muitas vezes, nem são escutadas. O poder da palavra se verifica igualmente na força do silêncio. Foucault acredita que o silêncio da razão deve estar sempre “alerta” para curar os “monstros” que um discurso investido nos sentimentos de desejo e credibilidade possam aferir. Mas este silêncio, da mesma forma que o discurso incoerente, provoca separação entre os interlocutores que interagem em busca da comunicação. Com relação ainda ao poder da palavra, para os poetas gregos do século VI, o discurso dito verdadeiro, no sentido forte e valorizado do termo, originava respeito, terror e idéia de submissão. Enquanto que, um século mais tarde, a verdade não designava mais o que era o discurso, ou no que fazia, e sim, indicava o que o discurso dizia. “Chegou um dia em que a verdade se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação, para o próprio enunciado: para seu sentido, sua forma, seu objeto, sua relação a sua referência” (FOUCAULT, 2004, p. 15).

 

Neste momento, o discurso verdadeiro não é mais o discurso precioso e desejável, pois deixou de ser um discurso ligado ao exercício de poder. Estabeleceu-se uma divisão entre o discurso verdadeiro e discurso falso. Essa ruptura foi uma questão histórica que fomentou a aparição de novas maneiras de mostrar a vontade de verdade, no anseio pelo conhecimento e pelo saber. Essa vontade de verdade impunha ao sujeito cognoscente certas formas que prescreviam o nível técnico do qual deveriam ser investidos os conhecimentos. Os conhecimentos devem ser verificáveis, úteis e devem ter sua própria história. Os partidos políticos e os próprios sujeitos políticos, muitas vezes, se aproveitam deste propósito para justificar seus discursos e angariar outros, também afoitos pelo conhecimento verídico, conforme consta num tópico a seguir desde trabalho.

 

 

É como se para nós a vontade de verdade e suas peripécias fossem mascaradas pela própria verdade em seu desenrolar necessário. E a razão disso é, talvez, esta: é que se o discurso verdadeiro não é mais, com efeito, desde os gregos, aquele que responde, na vontade de verdade, na vontade de dizer esse discurso verdadeiro, o que está em jogo, senão o desejo e o poder? O discurso verdadeiro, que a necessidade de sua forma liberta do desejo e libera do poder, não pode reconhecer a vontade de verdade que o atravessa; e a vontade de verdade, essa que se impõe a nós há bastante tempo, é tal que a verdade que ela quer não pode deixar de mascará-la (FOUCAULT, 2004, p. 19-20).

 

 

À parte do discurso que põe em jogo o poder e o desejo, há o discurso cujos procedimentos de controle são internos e exercem seu próprio controle. Não existe uma divisão entre uma categoria de discursos fundamentais ou criadores, e de uma massa que repete, glosa e comenta argumentos prontos e coletivos. Trata-se de uma espécie de desnivelamento dos discursos: um passa após o momento no qual foi formulado e, o outro, figura parte de cultura, como são os textos religiosos, literários e jurídicos. Nessa segunda parte, Foucault prevê o autor dos textos também como um agente limitador dos discursos, pois o foco de sua coerência provém de uma unidade e origem de significações. Ele é o articulador da linguagem, que apresenta, por meio de suas palavras, o seu gênio ou sua desordem.

 

O orador pode pertencer a um partido político, uma disciplina ou doutrina, que terão seus discursos limitados pelas designações comuns do que lhes é verdadeiro e o que lhes é falso. Portanto, apenas é conferido o senso de verdadeiro aquilo que obedecer às regras de uma “polícia” discursiva e satisfizer às exigências. Quando assumem tal privilégio, cada orador está sujeito a limitar seu discurso àqueles que não compartilham de mesmos preceitos. O compartilhamento de idéias dentro do grupo, sendo “perigoso” torná-las públicas exteriormente, é peculiar de governos e partidos.

 

Por isso, pode-se atualizar o antigo conceito de sociedade do discurso, considerando que hoje a institucionalização retórica, dentro de doutrinas pré-fundadas, conforme pressupõe Foucault, se constitui em discursos de filósofos, religiosos e políticos.  Esses sistemas buscam manter ou modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo. Aqueles que não consideram as premissas dos grupos, sociedades e doutrinas como uma verdade ideal, dentro do jogo de limitações, serão excluídos desses códigos, ou seja, na relação entre o sujeito orador com o sentido, o sujeito “dispõe de signos, marcas, traços, letras. Mas para manifestá-los, não precisa passar pela instância singular do discurso” (FOUCAULT, 2004, p.47).

 

“O ritual define a qualificação que devem possuir os indivíduos que falam e que, no jogo de um diálogo, da interrogação, da recitação, devem ocupar determinada posição e formular determinado tipo de enunciados (FOUCAULT, 2004, p. 39)”. Segundo Foucault, é no ritual que se define todo o conjunto de signos que devem acompanhar o discurso, incluindo o gestual, os comportamentos e as palavras. O discurso de políticos é uma prática de ritual que determina para os sujeitos que falam, ao mesmo tempo, propriedades singulares e papéis coletivos comuns pré-estabelecidos.

 

O ritual é característico em sociedades de discurso também, em que eram organizadas por grupos fechados que preservavam o ritual de recitação de poemas sem poder divulgá-los. O objetivo era proteger tal conhecimento de outros grupos, num jogo de segredos e revelações. Era um mistério provocador de emoção e curiosidade alheia.

 

 

1.4.  As paixões e os valores

 

 

 

 

Um discurso necessita provocar no público ouvinte um sentimento de paixão, entusiasmo e motivação para alcançar com maior êxito a recepção de sua mensagem. A união entre lógica e emoção, através da argumentação, é um dos elementos que contribuem no desenvolvimento do processo retórico, assim como todo o procedimento comunicacional e a empatia do relacionamento interpessoal. A legitimação do orador se dá através do seu poder retórico, seu envolvimento com o público e do compartilhamento sígnico de uma série de fatores, como a linguagem, os valores e a cultura.

 

A paixão, segundo Aristóteles (ARISTÓTELES, 1999, p. LI), “é o discurso do eu que se reflete em relações irrefletidas”. Ela pertence à consciência e ao inconsciente, à ação e ao pensamento, ao sentimento e também a uma outra visão de razão. A consciência provavelmente está vinculada ao pathos – passional -, pois está relacionada com um reflexo de uma certeza irrefutável e com uma temporalidade dos sentimentos. Esses sentimentos, em sua essência, poderiam levar o indivíduo para um âmbito mais próximo da sua causa, indo além da distinção entre consciência e inconsciente. 

 

A paixão é liberdade, livre-arbítrio e a realização da práxis. Por existir a paixão, o homem age intuitiva e impulsivamente. Ele não pode deixar de agir, seja pelo bem ou pelo mal, o que confere certo grau de perigo para o homem sensato.

 

A retórica é um ajuste de distância e proximidade, e de identidade e diferença. Expressada através das paixões, ou seja, por meio de manifestações intrapessoais (ARISTÓTELES, 2003, p. XLII). Essas paixões têm uma função intelectual, epistêmica, que gera uma informação sobre tudo o que, acompanhado de dor e prazer, provoca tais mudanças no espírito. Já a argumentação, visa convencer e é somente uma modalidade retórica entre outras. Ela insiste na identidade entre o “orador“ e o “auditório”, levando em consideração que o homem que busca, pela ambição, constante aprovação e aproximação dos outros admite um discurso calcado na autoridade. Entretanto, quando o receptor reconhece uma identidade de “superioridade” do orador, muito ao contrário do esperado, acabam estabelecendo o distanciamento maior possível.

 

Aristóteles considera o discurso presente, no qual entra em jogo o louvor, a censura, o prazer imediato e necessário à aceitação ou a desaprovação. Outra categoria retórica não admite que ela se concentre no futuro, pois probabilidade do “poder ser” dependerá de sua necessidade, portanto poderá não se fazer existir. Assim, esse discurso será anulado pela realidade diferente que o concedeu. Esse é o gênero deliberativo, em que se deve determinar uma opção e uma conduta (ARISTÓTELES, 1999, p. XXIX). O filósofo Perelman considera que “julgamos os homens segundo os juízos de valor que emitem; reservamo-nos também o direito de julgá-los de acordo com o valor que atribuem à nossa argumentação” (PERELMAN, 1999, p. 74).

 

Portanto, não existe somente a lógica da aproximação, no jogo das paixões. O imaginário e o real também fazem parte do universo de valores formulados pelo discurso transmitido. A identificação de uns com os outros, sim, gera aproximação, ainda que parcialmente. (ARISTÓTELES, 1999, XLIX). Se dois indivíduos se unem ou se opõem, haverá apostas e contestações através de imagens emitidas e recebidas. São apenas imagens geradas pelo emissor e pelo receptor, podendo ser verdadeiras e falsas. São perguntas e respostas lançadas o tempo todo, como na retórica. Há reações de aproximação e distanciamento. Além disso, há uma lógica – um jogo – de inferioridade e superioridade nesse relacionamento humano. Essa ambigüidade, na teoria das paixões, depende da imagem que se forma do logos (ARISTÓTELES, 1999, p. LI). A razão contemplativa, por ser considerada necessária e ser uma certeza absoluta do saber, terá sempre preferência em relação às paixões.

 

Muitas formas de paixão podem ser despertadas no ser humano. Como é o caso do amor e da piedade que geram proximidade entre os homens. Logo, se tem uma lógica aliada às oposições possíveis entre os indivíduos. Ou melhor, o amor e o favor visam instaurar uma identidade e preencher os vazios que separam os seres. Enquanto que o sentimento de inveja distancia os indivíduos. As reações de temor e de confiança, que representam a calma e o estado de equilíbrio, contribuem para ratificar este ponto de ambigüidade da teoria das paixões. Desta forma, concomitante à tomada de consciência de si na relação com o outro, estabelece-se a verificação de uma diferença ou de uma identidade, à qual se acrescentará à vontade de continuar, aumentar ou diminuir essas diferenças. Há também uma necessidade de se fazer saber ao outro, para definir uma base comum de convivência (ARISTÓTELES, 1999, p. XLIX).

 

Trata-se aí de identidade e diferença, supostas ou reais, que na verdade, parecem governar a estrutura aristotélica das paixões. Estas, afinal, revelam simetrias impossíveis, resultam do fato de os homens serem diferentes até quando buscam uma identidade, que somente poderia ser política. A paixão é a primeira forma de auto-representação projetada sobre outra pessoa e que reage a ela. Como a vida da paixão incide na sua representação e expressão, a paixão se torna a própria coisa e o espetáculo, a coisa, ao mesmo tempo (ARISTÓTELES, 1999, p. L). 

 

Desta forma, a teoria das paixões estabelece um vínculo com todas as teorias de contingência humana, de alma, liberdade e de ação, pois ela não pode ser considerada de caráter apodítico, evidente, irrefutável. Trata-se de um jogo dos contrários, da reversibilidade, da transformação, da luta contra a própria paixão, como se combatesse o outro, pois a paixão é o outro em nós, o humano em sua diferença. E a temporalidade é refletida pela paixão dentro de diferenças, distâncias, certeza e dúvida, pela dicotomia necessária desta natureza (ARISTÓTELES, 1999, p. L). As paixões podem gerar virtudes nos homens, valores, crenças, sentimentos.

 

A discussão de valores é o grande objeto de estudo da dialética platônica, pois através da dialética é possível transcender as hipóteses e chegar a um absoluto. A dialética sozinha não pode fundamentar as hipóteses, mas pode criar uma evidência a partir delas, suficiente para ser criticada, e retomar novamente as discussões. Portanto, “a dialética torna-se supérflua: é crítica, mas não construtiva” (PERELMAN, 1999, p. 5).

 

Reboul afirma Aristóteles quando diz que (2004, p. 165) os valores encontram-se simultaneamente na base e no termo da argumentação. Eles variam conforme o auditório, que interpretam os valores universais da sua maneira particular. Toda sociedade admite o belo e o justo, mas de formas bem distintas. É impossível renunciar aos juízos de valor no âmbito da argumentação para atingir a objetividade, pois nesse domínio, estão todas as questões formuladas nos termos subjetivos dos valores.

 

Perelman e Tyteca distinguem dois tipos de valores: os abstratos, como a justiça ou a verdade, que se fundamentam na razão; e os concretos, que exigem virtudes como a obediência e fidelidade. Além disso, uma mesma argumentação pode combinar esses dois tipos: “Todos os homens são iguais porque são filhos de Deus” (REBOUL, 2004, p.166).

 

A discussão sobre valores ficou um pouco diluída no decorrer da história do pensamento humano, perante outros questionamentos como as abordagens éticas e estéticas do homem que se comunica. Há um tempo, os valores retomaram importância, através das seguintes terminologias: Axiologia, Teoria dos Valores e Filosofia dos Valores. Há dois princípios para definir valor, segundo GIRARDI (1988): o valor em si mesmo e o valor com respeito a nós. O primeiro é o aspecto objetivo, pois não se dá valor e sim, se descobre o valor, ou a qualidade valiosa que os entes possuem. O valor em si mesmo não depende de alguém, pois é uma qualidade própria dos entes. O segundo é o subjetivo; a etapa seguinte é o fundamento da relação. O valor com respeito a nós representa acatar os valores descobertos ou as qualidades valiosas que os entes possuem. O útil, belo, justo, conveniente, etc., não são adjetivos indiferentes, eles existem, pois há uma reação, uma disparidade que distingue estes valores (GIRARDI, 1988, p. 135-138):

 

 

O valor é uma qualidade objetiva dos entes e, enquanto tal, não depende de nós. Num segundo aspecto, o valor não nos é indiferente e, por isso, descobrimos, acatamos, vivemos valores. Se o valor é uma qualidade dos entes, o valor não é, propriamente, um ente, não é algo. Mas está em algo. Enquanto este algo vale. Por isto, diz-se diante da pergunta “o que é valor?” que o valor não é, o valor vale. ‘O ser é, o valor vale’. O valor não está na ordem do ser, mas na ordem do valer.

 

 

Para ser considerado valor, deve-se questionar se são valores referentes ao mundo da natureza, dos entes existentes ou se são valores referentes ao agir, ao conviver e ao ser humano. São os valores que perfazem os elementos de repulsa ou aceitação de discursos do relacionamento humano numa sociedade batizada culturalmente pelo julgamento das atitudes e valores.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 “Tem poder aquele em quem a multidão confia”.

 

Ernest Raupack

 

 

 

 

 

 

2.   COMUNICAÇÃO, RELAÇÕES PÚBLICAS E RETÓRICA

 

 

 

2.1.    A interface entre a comunicação, Relações Públicas e retórica

 

 

De uns anos pra cá, para cada significado e cada valor, o homem atribui uma respectiva disciplina científica. A ciência é eficaz ou ineficaz, interessante ou não, fértil ou infértil, tratada exatamente de acordo com a relação do significado ou do interesse do problema, ao redor de si1 (BURKART, 2002, p. 421). Cada disciplina dá seu tempero especial para problemas diferentes, porém é perceptível a importância de se levar em consideração que nenhuma disciplina se legitima quando isolada de outras. Os valores e características sígnicas de áreas específicas, pertencem a um conjunto estrutural complexo. Eles contêm pequenos fragmentos de outras disciplinas e compõem o seu próprio universo científico.

 

Esse é o caso também da ciência das comunicações, que interage perfeitamente entre distintas naturezas científicas. O caráter multíplice é totalmente pertinente ao processo comunicacional, pois contribui no estudo e análise de um objeto sistêmico, heterogêneo e organicamente múltiplo. A colaboração dessas áreas é positiva à medida que elas edificam uma trama rica de conhecimentos; no entanto, permite uma amplitude de ações tão vasta que prejudica a compreensão das ciências da comunicação perante a sociedade em geral. Tal ruído é ainda maior quando se refere ao estudo da atividade de Relações Públicas, uma habilitação da Comunicação Social. Sua teoria e prática adquirem muitas possibilidades de pesquisa, atuação e experimentação. A comunicação, assim como as Relações Públicas, percorre um campo extenso que permite uma abordagem heterogênea, multi e interdisciplinar.

 

A comunicação é um conjunto de conceitos e efeitos decorrentes das implicações teóricas e práticas. A dificuldade em entender a profissão do comunicólogo está em alguns pontos fracos, como a falta de uma teoria geral sobre a função global das comunicações de massa no contexto social (WOLF, 2003, p. 15), além de um pragmatismo referente às exigências metodológicas desse objeto e pela escassez de produção e reflexão sobre a doutrina. Esta pesquisa traz uma visão panorâmica sobre a teoria das Relações Públicas, focando, muitas vezes, na visão política e legitimadora da profissão, abordada por Roberto Simões.

 

Convém à atividade de Relações Públicas o planejamento estratégico de comunicação; as pesquisas e auditorias de opinião, monitoramento do ambiente; organização de eventos; participação da comunicação integrada com outras diversas áreas do conhecimento; organização da práxis, através de finalidades institucionais, em apoio aos recursos humanos e ao marketing. Assim, o profissional pode exercer função administrativa, estratégica, mediadora e política num sistema social global de organizações e instituições. Segundo Kunsch (2003, p. 32 - 40), a organização compreende um instrumento técnico e racional que canaliza energia humana em busca de objetivos prefixados, prestando serviços à sociedade e atendendo necessidades de seus próprios participantes.

 

A atuação do profissional de Relações Públicas se estabelece através do discurso proferido em/para organizações e instituições. Mas qual a diferença entre eles? As organizações têm a função de transformar insumos em bens e serviços. Enquanto que as instituições são de ordem social e sua base é propiciar os instrumentos que permitam converter motivos, necessidades, crenças, valores dos empreendedores em definições que caracterizam a razão de ser da organização. Instituição é um organismo vivo, um sistema de relações sociais resultante de pressões da sociedade, que valorizam necessidades de seus membros e do ambiente. De acordo com Antonio Lucas Marin, “como instituição, a organização é uma consolidação de função e papeis sociais em torno das necessidades básicas da sociedade” (apud KUNSCH, 2003, p. 38). É importante frisar essa função das Relações Públicas no processo de institucionalização das organizações, as quais devem assumir compromissos e objetivos relevantes para a sociedade e o mercado. Da mesma forma, o profissional deve fomentar aspectos e estruturas estratégico-administrativas das organizações nas instituições, despertando-as para exigências mercadológicas e funcionais. São contribuições da comunicação para a retórica e a prática de ambas estruturas sistêmicas.

 

A atividade de Relações Públicas possui esse enfoque sistêmico, o que lhe confere uma distinção funcional e uma interdependência dos demais elementos constituintes do processo comunicacional. O termo Relações Públicas trata de uma ciência particular, que designa a profissão, o profissional, a atividade, a função e um processo específico das ciências da comunicação. Sua atuação, hoje, ocorre de maneira mais profunda e responsável no âmago das sociedades, abrangendo todas as dimensões do processo comunicacional ao administrar a política dos relacionamentos e fomentar novos códigos sociais ideológicos na complexa esfera social. A amplitude e flexibilidade de atuação permitem ao profissional “inter-relacionar” distintos níveis e dimensões públicas.

 

Assim, pode compreender o sistema social não somente em nível micro, como o entre organizações e públicos, mas também em nível macro, como o relacionamento entre nações e blocos econômicos. Aqui se encontra mais uma abordagem fascinante da profissão, que é o aspecto diplomático da área. Ou seja, a negociação de interesses entre públicos/países, cultural e ideologicamente díspares, e a administração do relacionamento humano e institucional conferem à atividade de Relações Públicas um enfoque peculiarmente diplomático. Essas conexões se efetuam por meio da articulação de argumentos retóricos entre as partes, os quais visam convencer o outro que suas premissas são verdadeiras e representam a melhor alternativa para a compor uma síntese dialética válida. Contudo, apesar desse tema ter total relevância e ratificar-se plenamente junto a este estudo, não será aprofundado, pois a analogia entre Relações Públicas e a diplomacia é intensamente rica e merece uma pesquisa exclusiva.

 

Voltando ao propósito deste tópico, que correlaciona as interfaces da comunicação, das Relações Públicas e da retórica. As três áreas se fundem cativadas pela necessidade de interação que as constitui, além de estabelecerem um notável intercâmbio, na medida em que essas ciências estudam as relações entre indivíduos que se comunicam por meio de códigos lingüísticos com propósito retórico de interação social e trocas de poder.

 

A autora Lúcia Halliday (in SIMON, 2004) propõe uma visão interessante sobre o aspecto da legitimação de instituições através de conceitos como utilidade, compatibilidade e transcendência.  A sociedade e as organizações se utilizam desses preceitos com objetivo de provocar impacto em sua retórica e serem reconhecidas por todas. Como exemplos, temos: a empresa alemã Bayer que utiliza o nome de uma menina brasileira como forma de aproximação, identificação e consubstância na retórica; a francesa Rochling-Burbach que usa a utilidade como ponto forte ao enfatizar seu relacionamento com os “vizinhos” e seu país-anfitrião; a metáfora da felicidade e do futuro é trazida também pela mensagem transcendental da Mitsubishi por uma foto de criança sorrindo e um texto que finaliza com: “uma vida ideal para todos”.

 

Com essas três forças legitimadoras propostas por Halliday, é possível que as Relações Públicas contribuam para a harmonização das fronteiras entre as sociedades, organizações e seus ambientes externos. O papel desse profissional, tanto na ação, como no discurso, é de suavizar a “selvageria primitiva” das organizações e da sociedade. Esta busca seus interesses satisfazendo as paixões de suas lideranças e esquece de sua finalidade primeira, que é o relacionamento social. Dentro desse utópico sistema social moral, se estimula uma sociedade harmonizada pela ação de alteridade, e não, por uma sociedade neutralizada, passiva e apática. O princípio de alteridade é a bondade, quando o indivíduo percebe os demais seres como distintos dele próprio e estabelecem comunhão, na troca intencional de bens – especialmente os simbólicos. Assim, os aspectos da arte do bem viver são fundados pela ética e pelos princípios filosóficos da harmonia do comportamento. A ética e a estética nutrem-se uma da outra. O profissional de Relações Públicas desenvolverá através da ética e da estética a função e a atividade de Relações Públicas (SIMÕES, 2003, p. 222 - 223).

 

Segundo o russo Jan Mukarovsky,

 

 

O estético é dizer a esfera da função, da norma e do valor estético; está, pois, amplamente estendido sobre a esfera global da atividade humana, sendo um fator importante e multilateral da prática da vida (apud SIMÕES, 2003, p. 221).

 

 

A esfera humana da atividade, citada por Mukarovsky, é o ponto chave para estabelecer a consciência da função das atividades de Relações Públicas. Seres humanos se inter-relacionam para viver harmoniosamente, inseridos num complexo sistema social. Essa sociedade se estende continuamente rumo ao engajamento global e, cada vez mais, fragmentando e enfraquecendo a cultura regional. O relacionamento social se estabelece pelo convívio e intercâmbio de experiências, o que torna o particular e individual cada vez mais difuso pelas características de coletividade da sociedade de massa.

 

 

2.2. Uma comunicação para a sociedade de massa

 

 

No século XIX já se faziam evidentes as relações entre massa e cultura, preâmbulos eminentes para a síntese do surgimento social do conceito de massas. A teoria da sociedade-massa compreende um movimento de reflexão de liberais franceses e ingleses no período pós-napoleônico que vai da restauração à Revolução de 1848. Além dos liberais descontentes e conservadores nostálgicos, segundo S. Giner (BARBERO, 2003, p. 55 e 56), os socialistas desiludidos e os reacionários abertos também contribuíram para a formulação da teoria da sociedade de massa.

 

O conceito de massa, considerando uma linha histórica, continha preceitos negativos, pejorativos e marginalizados, porém, uma concepção do processo social transforma essa idéia para indicar a tendência da sociedade e estabelecer-se como uma agregação de indivíduos isolados. A massa é o coletivo confundido com o individual, pois se forma de instintos e tendências dos seres humanos, que juntos, buscam um domínio cultural e político. Essa irracionalidade das massas é explicada por Gustave Le Bom, em La psychologie des foules, e por Sigmund Freud em Psicologia das massas e análise do eu.

 

Le Bom acredita na “alma coletiva” da massa que direciona o comportamento da multidão diante da civilização industrial. Segundo ele, massa é um fenômeno psicológico que provoca nos indivíduos um comportamento completamente distinto do que teriam isoladamente. Trata-se da “alma coletiva” ou “massa psicológica”, formadas pela afetividade e pelo instinto dos indivíduos. Juntos podem ser agressivos, infantis, impulsivos. “São uma energia, mas sem controle: e não é esse precisamente o ofício da ciência? A chave se encontraria na constituição da crença que em sua configuração religiosa permite detectar os dois dispositivos de seu funcionamento: o mito que as une e o líder que celebra os mitos” (BARBERO, 2003, p. 60).

 

Nas massas não há somente instinto, segundo Freud, como propõe Le Bom, mas também uma produção responsável por dar vida a criações espirituais de uma ordem cultural, como o idioma, o folclore e os cantos populares. Ele também prevê que o inconsciente está formado basicamente pelo reprimido: o que acontece na massa talvez não seja tão radicalmente diferente do que se passa com o individuo. O que explode na massa está no indivíduo, porém de maneira reprimida. Outros teóricos também refletem sobre a massa e consideram que há dois tipos de coletividade: a comunidade e a sociedade (associação). A comunidade é a unidade do pensamento e da emoção através da solidariedade, lealdade e identidade coletiva, enquanto que a sociedade, ao contrário, é a separação entre os meios e os fins, onde predomina a razão manipuladora e a ausência de relações de identidade no grupo. Assim, prevalece na sociedade o espírito do individualismo e da agregação apenas momentânea, que não produz laços e vínculos (BARBERO, 2003, p. 61 - 63).

 

O processo de comunicação de massa, segundo BURKART (2002, p. 498), sempre deve ser considerado um elemento do sistema social global que ao mesmo tempo influencia e é influenciado2. Essa troca é relevante para o processo de relacionamento interpessoal. Por exemplo, sobre a possibilidade de acesso a mídia, sobre as regras que atingem as relações de propriedade da mídia e suas possibilidades de controle.

 

A existência racional da sociedade é atualizada e concretizada através da língua, configurada por uma estrutura inteligível do pensamento comum entre os membros a que pertencem. Estes compartilham praticamente os mesmos códigos e produzem constantes intercâmbios para modernizar a estrutura lingüística e se comunicarem compreensivamente no contexto social. Através da língua, consolida-se o pensamento coletivo e sistematiza-se a comunicação para o relacionamento entre os homens. É um dos elementos que produzem e firmam a legitimidade ou não de uma retórica na sociedade de massa. Entre todos os indivíduos ligados por uma linguagem, se estabelece uma espécie de média, em que todos reproduzem aproximadamente os mesmos signos unidos aos mesmos conceitos.

 

À atividade de Relações Públicas interessa que o indivíduo se insira na sociedade por meio de três situações: conquistando a simpatia da massa através da mídia com simulação de interesses comuns; contornando as controvérsias que comprometem moralmente a sociedade ou organização que podem ser alvo da admiração da multidão, e formando opinião para constituir um público, que uma identidade ou uma aproximação como resultado de práticas efetivas. Mas essa questão não é tão simples na prática, pois objetivar formar imagem, conceito, atitude, boa vontade ou opinião, considerando o homem na condição de massa, multidão ou público, representa grande dificuldade para se alcançar um denominador comum, como propõe Habermas (apud VIEIRA, s.d). Mesmo uma pesquisa traduzindo um agregado de vontades particulares ou individuais que não representam a vontade geral, mas somente uma fração de certa situação, ela ainda consegue revelar informações do mais fiel retrato da realidade social.

 

Na sociedade de massa plural, complexa e antagônica, o Relações Públicas pressupõe a igualdade social, levando em conta as incompatibilidades dos membros que a compõem e busca a harmonia. Esse profissional da comunicação social está a serviço da sociedade como um todo, influenciando e disseminando os interesses de todos.

 

Partidos políticos utilizam-se do poder da comunicação para propagar seus ideais e legitimar sua auto-representação na sociedade de massa. O profissional constrói a área de conhecimento pertinente às Relações Públicas através de um discurso intencional, que pode ser coercitivo, libertário ou alienante. A linguagem é matéria constitutiva da área de conhecimento da sociedade e da comunicação de massa. Wittgenstein entende que o jogo da ação comunicativa integra cada ato de linguagem numa atividade social complexa, pois “falar uma linguagem é parte de uma atividade ou de uma forma devida” (apud VIERIA, s.d.), que se estabelece o elo entre a linguagem e a práxis vital.

 

A comunicação muitas vezes é comprometida por uma retórica submetida a concessões dos poderes públicos, como é o caso de mídias impressas e eletrônicas de massa. O rádio e a televisão tendem a ser politicamente mais flexíveis para não sofrer ameaças à sua implantação e seu crescimento. O mesmo processo ocorre com jornais e revistas, que pecam em qualidade na atual conjuntura brasileira de comunicação por questões de interesse imediato, gana financeira e de poder das empresas jornalísticas e editoriais. É por essas razões que a credibilidade dos meios de comunicação de massa, cada vez mais, torna-se irrisória.

 

A sociedade não confia mais em todas as informações e em tantos discursos malditos e mal sustentados dessa mídia. Com o intuito de firmar-se como meio popular de comunicação, utilizam uma linguagem cada vez mais direta e acessível, que atrai a grande sociedade de massa plural e heterogênea. Quando surgiram no Brasil, os meios de comunicação de massa não buscavam formar opiniões legítimas de seus ouvintes, e, muito menos, provocar discussões de feedback sobre a transmissão. “Os controles sociais por ela [radiodifusão] veiculados coibiam as pessoas quanto a discutir realmente os seus problemas, suas aspirações e o seu desejo inerente de participar ativamente da política brasileira” (FORTES, 2003, p. 222). E o que se vê hoje é o abuso desse poder que os veículos de comunicação de massa produzem.

 

 

 

2.3. O discurso nas relações humanas e a retórica das Relações Públicas

 

 

 

Dentro da perspectiva de uma sociedade de massa, composta pela complexa rede de relacionamentos e conflitos, os problemas do próprio homem, que a constitui, se polarizam. Emerge, assim, a atividade de Relações Públicas, pressupondo uma visão humanista da teoria. Este homem está organizado em classes sócio-econômicas, subdividido em “tipos de públicos” e à margem do reconhecimento de sua dignidade e cidadania. Ele necessita dos relacionamentos e do “contrato social” para se estabelecer como membro dessa sociedade e compartilhar da linguagem e do pensamento social.

 

Para a concepção do relacionamento interpessoal, a língua assume total relevância. Ela é esculpida por um sistema de valores, composto de signos que materializam a linguagem e determinam características peculiares de cada sociedade. A comunicação torna-se marcada pelo pensamento e pela linguagem de uma época e de um grupo social em especial. Por meio de um sistema de valores, as discussões do relacionamento humano propagam esses conceitos baseados na consciência individual e coletiva e formam o processo sígnico ideológico da sociedade. Além disso, a linguagem social está perdendo seu poder de palavra e ganhando o poder da imagem, o que evita o desenvolvimento da ação comunicativa em níveis de igualdade entre os homens (VIEIRA, s.d).

 

A linguagem social consiste num quadro geral dos diferentes ramos do saber humano. Suas acepções, impressões, conclusões e sensações são frutos do conhecimento e das crenças do homem compreendido pelo espaço e tempo. Hume ([s.d.], seção II) acredita que as impressões são as percepções mais vivas do ser humano, quando ouve, vê, sente, ama, odeia, deseja ou quer. Elas diferenciam-se das idéias, que são as percepções menos vivas, das quais se tem consciência quando se reflete sobre as sensações. Essas impressões do ser humano devem ser notadas pelo profissional de Relações Públicas, pois se referem aos elementos mais primitivos da experiência humana. Através dessas impressões, o homem conecta a si mesmo de forma intensa e honesta, enquanto que as idéias afloradas da consciência quando se pensa ou raciocina, são imagens fracas das impressões. É importante provocar nos discursos mais do que idéias: impressões correspondentes aos anseios da sociedade e de seus pensamentos da atualidade.

 

Através desses pensamentos manifestados pela linguagem, o coletivo se manifesta. Mas não há relação de identidade nem de oposição entre pensamento e linguagem. Segundo Fiorin (1988, p. 34), o que há é “uma indissociabilidade de ambos”.  O pensamento e a linguagem, diz Schaff (apud FIORIN, 2002, p.34), são dois aspectos de um único processo: o de conhecimento do mundo, da reflexão sobre esse conhecimento e o da comunicação de seus resultados. Para Vygotsky, o pensamento e a linguagem são diferentes em sua origem; porém, ao longo do processo evolutivo, soldam-se num todo indissociável de forma que, no estágio de pensamento verbal, torna-se impossível dissociar as idéias da linguagem. Pensamento e linguagem são distintos, mas inseparáveis. Por isso, o discurso materializa as representações ideológicas; as idéias não existem fora dos quadros lingüísticos, e as formações ideológicas só ganham existência nas formações discursivas entre os seres humanos.

 

 Outro fator determinante para legitimar o discurso no relacionamento humano é a consciência individual, formada por um conjunto de discursos interiorizados pelo indivíduo ao longo de sua vida. O homem aprende como ver o mundo pelos discursos que assimila e, na maior parte das vezes, reproduz esses discursos pela sua retórica. Sendo o homem um animal racional e livre, pode organizar seu discurso como quer para exprimir o que quiser, porém continua sendo produto de relações sociais, em que age, reage, pensa e fala, de acordo com seu grupo social. “Seu discurso e suas idéias são aquelas veiculadas na sociedade em que vive” (FIORIN, 2002, p.44).

 

As Relações Públicas estabelecem uma proposta interdisciplinar com um panorama interessante na perspectiva das relações humanas e na dinâmica social do discurso. Através da experimentação de novos silogismos, busca provocar impressões, produzindo e conciliando diversas correntes de idéias, estabelecendo possibilidades para o diálogo e a interação dos homens na sociedade.

 

O discurso e as ações sociais que sustentam um relacionamento público eficaz baseiam-se numa comunicação ética e honesta, que visam a credibilidade, consistência das ações e confiança. Alguns fatores do relacionamento humano que são determinantes para colaborar no alcance do que a opinião pública deseja são: estabelecimento de um tratamento justo para alcançar a reciprocidade; manutenção  de uma comunicação contínua para evitar a alienação e efetivação desse relacionamento para análise constante da imagem. Desta forma, o profissional de Relações Públicas tem a possibilidade de corrigir prováveis conceitos equivocados formulados externamente ao grupo social a que pertence, além de sustentar a opinião interna esperada (SIMÕES, 2003, p. 14). 

 

O homem necessita dessa interação e desse meio social, pois está na capacidade inata ao ser humano a confirmação de si mesmos e dos outros. Essa confirmação desencadeia-se de forma natural: ao mesmo tempo em que o homem confirma o outro, este o confirma e ambos aceitam ser confirmados por eles, o processo de relacionamento se estabelece. Vive-se nesse “caráter de parceria”, nessa troca permanente, nesse convívio constante. O homem sente necessidade de ser confirmado e valorizado pelos demais. Seu comportamento varia conforme a aceitação e receptividade do meio em que se encontra (MAURICE, 1995). Rousseau já diria que a idéia de voltar à natureza, ou seja, a excelência natural do homem, está na necessidade do contrato social para garantir os direitos da coletividade. No livro Contrato Social (1762), Rousseau defendeu que a vida social é determinada, através deste acordo, em que cada contratante condiciona sua liberdade ao bem da comunidade, procurando proceder sempre de acordo com as aspirações da maioria.

 

O homem adquire um senso de identidade, proveniente da empatia e do reconhecimento do outro como uma pessoa integrante do mesmo grupo social. “O senso de identidade exige a existência de um outro que nos conheça”, destacou Laing (apud MAURICE, 1995). Esse ponto de vista ratifica a existência do indivíduo num patamar sistêmico social, conferindo-lhe peculiaridades existentes no coletivo e no seu interior singular. É a coletividade e a unicidade presentes como determinantes geográficos e biológicos para a construção do ser único e plural, que interage e se relaciona, ao mesmo tempo, com o ambiente externo e consigo mesmo. De tal modo, compreende-se o ser humano como um “objeto de observação” do seu parceiro, que o sente e percebe como um indivíduo dinâmico e de si próprio, que busca o autoconhecimento para melhor interação social. Além do diálogo interno, é preciso que a pessoa sinta o outro totalmente presente para si, ou então, não o verá em sua totalidade (MAURICE, 1995). Isso para buscar a integralidade do homem como ser humano completo e complexo, digno de ser honesto consigo mesmo, não tendo que parecer outra figura para simplesmente participar das interações sociais.

 

            Mas há diferença entre o ser e o parecer. O primeiro traduz uma espontaneidade do sujeito em relação ao outro. Ele, sem pensar a respeito de sua imagem e de seu discurso, entrega-se ao observador. Enquanto que o “homem que percebe” se preocupa com sua imagem e discurso, racionaliza as relações e planeja seu comportamento e sua retórica. Essa atitude de aparentar o que não se é, prejudica a autenticidade de suas ações e acaba por provocar, em contrapartida, uma falsa confirmação (MAURICE, 1995). Imagens formadas e estimuladas à opinião pública através da retórica do Relações Públicas, correm igual perigo de serem mal-entendidas ou não aceitas por falta de identidade desse público receptor para com as premissas formuladas. A interação social não se efetiva quando não há este contrato social, a linguagem e o pensamento social compartilhado.

 

            É importante que dentro dessa dimensão social, os indivíduos que mantêm uma relação intragrupal, seja por vínculos psicológicos, espaciais ou momentâneos, estejam conscientes do papel dinâmico e da existência de outros indivíduos como seres humanos. Conscientes de que a abertura para ouvir o outro e sentir suas necessidades e expectativas é primordial para a efetivação do diálogo permanente e “saudável”. O Relações Públicas que mantém esse relacionamento interpessoal de forma proveitosa, consciente e respeitando a base de todos os grupos, que são as pessoas, está de acordo com esse processo sistêmico social. Conforme SIMÕES (1999, p. 63), “as pessoas são as geradoras dos instrumentos de relação. Elas são a essência da transação. Um sistema social existe somente com pessoas e para pessoas, e as pessoas somente existem em um sistema social, jamais fora do mesmo”.

 

            Desta forma, as Relações Públicas tem o poder de promover ações catalisadoras para integrar os interesses dos públicos, o que se torna fundamental também na atual configuração política social. O profissional pressupõe uma atuação perante a sociedade por meio de um conjunto de procedimento, inclusive envolvendo os diálogos retóricos, postos em funcionamento para resguardar o caráter harmonioso das relações interpessoais. Assim sendo, se convencionou a atividade de Relações Públicas como uma filosofia social  (SIMÕES, 1999, p. 173).

 

Partindo desta premissa, o individuo é o ser humano relacionado consigo mesmo e com outros de seu meio social. Mas quem é o ser humano? A busca da essência da natureza humana tem linhas de pensamento por vezes antagônicas, outras integradoras, mas nenhuma definiu, realmente, tal realidade. Portanto esse ser humano existe ao mesmo tempo em que o individualismo radical se depara com o coletivismo exacerbado. No meio termo, as Relações Públicas coagem integrando este ser humano à sociedade através da doutrina do bem comum (SIMÕES, 2003, p. 63-64).

 

Considerando este enfoque das relações humanas, a atividade de Relações Públicas visa estabelecer e manter a compreensão mútua, conforme consta na definição da profissão estabelecida pela Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP): “Relações Públicas são a atividade e o esforço deliberado, planejado e contínuo que visa estabelecer e manter a compreensão mútua entre uma instituição pública ou privada e os públicos aos quais esteja direta ou indiretamente ligada” (SIMÕES, 2003, p. 88). Esta visão se propõe da mesma forma como uma dialética do conflito, desfragmentado pelo diálogo.

 

A institucionalização do diálogo modifica realidades, cria motivações e “desmorona” estruturas falsas. Ela é capaz de mobilizar a consciência social, com a mesma objetividade que a ciência e a técnica se distinguem nesta sociedade atual globalizada, em que o ciberespaço tomou conta, contribuindo para a permanente modernização e criação de novas formas de diálogo. Mesmo o diálogo sendo tão antigo quanto a própria humanidade, é dele uma boa parte da responsabilidade na integração entre as pessoas, sociedades, países, organizações. “Esse clima de integração está na dependência direta da determinação do interesse público e de sua identificação com os interesses particulares, com a aplicação sistemática de Relações Públicas” (ANDRADE, 1989, p. 18).

 

O diálogo do homem complexo, concebido pela natureza humana e instituído de necessidades sociais, pretende a construção de relacionamentos para saciar o conflito iminente. Muito mais que criar relacionamentos, o Relações Públicas tem a missão de estabelecer confiança, compreensão mútua e entender a comunicação de forma holística, baseada na verdade e na informação total. É preciso desenvolver um nível de compreensão alto a respeito da missão, dos valores, filosofia, objetivos, planos e ações estabelecidas pelas instituições sociais. “O exercício profissional do Relações Públicas utiliza-se de palavras-chaves como: reputação, percepção, credibilidade, confiança, harmonia e a busca da compreensão mútua” (VIEIRA, s.d.).  

         

O homem complexo é concebido pelas transações com seu ambiente, as linguagens, as ideologias, os indivíduos motivados por um desejo de usar suas habilidades para solucionar problemas ou de dominar os problemas com os quais se defrontam, ou, em outros termos, que se esforcem para dominar o mundo externo (CHIAVENATO, 1997, p. 111). A partir deste aspecto pode-se verificar a forte influência das relações humanas na teoria das Relações Públicas. Busca-se a legitimação pelo equilíbrio dos relacionamentos interpessoais. E mais, antes de criar essas condições ideais para harmonizar os interesses envolvidos de cada grupo social, pessoas e nações, os homens devem partilhar de um contrato social aceitando a si e ao outro, através de diálogos e discursos retóricos. A linguagem e o pensamento de cada sociedade se constroem nesta interface e polarizam a sistêmica do processo retórico.

 

 

2.4.   Retórica versus Relações Públicas

 

 

Da mesma forma como a teoria das paixões estabelece um vínculo com outras áreas (ARISTÓTELES, 1999, p. L), as Relações Públicas proporcionam o relacionamento interdisciplinar. Ambos possuem um caráter apodítico, ou seja, são ciências calcadas no jogo das determinações, dos contrários, da ambigüidade. A todo tempo, esse profissional precisa estar presente no consciente e inconsciente, provocando sentidos e valores. Além disso, disseminando estes valores, sejam eles sociais, culturais ou organizacionais, para uma sociedade igualmente ambígua – repleta de contradições julgamentos e estereótipos.

 

Conforme colocado anteriormente, a interdisciplinaridade da teoria da comunicação pressupõe uma multiplicidade de enfoques e possibilidades de estudos que se interagem e revelam uma estrutura díspar, como se pode averiguar nas relações estabelecidas entre indivíduos e grupos sociais, em fatos culturais, econômicos, políticos, ideológicos, históricos, jurídicos e filosóficos. Estes são fatores que de fato elucidam a razão pela qual existe a ciência das Relações Públicas (SIMÕES, 2003, p. 52 - 53). Por conseguinte, no momento em que se concebe a comunicação fundada sob o enfoque lingüístico, há muito que explorar, pois ela se constitui através de aspectos lógicos (modelos adotados por Saussure e Hjelmslev), de aspectos da análise semântica lingüística (conforme descreve Greimas e Bakhtin) e de aspectos da comunicação do pré-sentido, proveniente da teoria da interpretação (proposta por Pierce e J. Ransdell).

 

Essa última proposta considera a comunicação como uma produção de signos a serem interpretados. Segundo Pierce (apud NETTO, 2003, p. 213), todo pensamento pode ser visto sob uma forma dialógica, às vezes explícitas – interpessoal -, outras implícitas – intrapessoal. Esta relação “triática” entre o objeto, signo e interpretante se ratifica “num jogo de produção sígnica capaz de envolver tanto a comunicação com intenção de comunicar como aquela sem essa intenção, e que poderia, esta, ser considerada sob o aspecto de comunicação do pré-sentido”. Ou seja, a comunicação permite a existência de pré-signos, de signos veiculados a pré-sentidos, admitindo um interpretante lógico e emocional que entende a complexidade do homem, o agente interpretante, relacionada ao signo, e não, o homem igual ao signo.

 

 

De acordo com as diversas situações socioculturais, existe uma diversidade de códigos, ou de regras de competência e de interpretação. E a mensagem tem uma forma significante que pode ser preenchida com vários significados, contanto que existam vários códigos que estabeleçam várias regras de correlação entre determinados significantes e determinados significados. E, no caso de existirem códigos de base aceites por todos, há diferenças no subcódigos (ECO, in WOLF, 2003, p. 124).

 

 

Essa analogia é pertinente ao definir as relações entre o homem e a produção sígnica da comunicação social. Poder-se-ia falar sobre outros conceitos de extrema importância para a compreensão desses processos comunicacionais da sociedade, mas não antes de comentar o valor da relação entre ethos e pathos para a análise social focada no discurso. Conforme já foi colocado no primeiro capítulo, na retórica clássica aristotélica, ethos se refere à imagem discursiva que o orador constrói de si mesmo, ou seja, não remete a real dimensão do interpretante, enquanto pathos está relacionado à imagem discursiva que o enunciador faz do público ouvinte. Se houver uma harmonia entre os dois, o processo discursivo se consolida eficazmente (GUERRA, p. 3).

 

Partindo agora para uma análise fundamental da teoria das ciências da comunicação, verifica-se que o processo discursivo e toda essa relação entre os interlocutores, constitui-se de elementos básicos da teoria da comunicação. São elas: fonte, codificador, canal, mensagem, decodificador e receptor. À medida que o emissor e o receptor se comunicam, um efeito mútuo é provocado entre eles. Quando o emissor é intimado pelo receptor durante o processo de envio da mensagem, a própria mensagem e a interpretação dela serão afetadas. Os distintos contextos sociais em que atuam os variados tipos de comunicações tornam ainda mais complexa a análise profunda da área dentro e fora da sociedade. Por ser difícil o processo de relacionamento entre indivíduos, grupos, unidades institucionais e pelo fato de compreender estruturas de interpretação e esquemas cognitivos que cada um possui, a comunicação não deve ser vista pelo enfoque meramente mecanicista da comunicação e, sim, considerada de forma sistêmica, interpretativa e crítica (KUNSCH, 2003, p. 71 - 72).  Todos os aspectos relacionados contribuem para formar a rede processual da comunicação.

 

As organizações, de um modo geral, necessitam adotar uma nova filosofia organizacional mais crítica, que traz atitudes inovadoras e coerentes com os anseios da sociedade moderna. Isso se dá através da abertura de canais e da prática da “comunicação simétrica”, pois de nada vale manter uma retórica organizacional moderna, enquanto suas verdadeiras atitudes e ações comunicativas estão predominantemente caracterizadas por uma cultura tradicional. Mas esta sistematização não é simples, pois se deve levar em conta todos os fenômenos intrínsecos e extrínsecos do que constitui um agrupamento de pessoas que trabalham coletivamente para atingir metas específicas e o cruzamento constante entre a cultura e o universo cognitivo de cada um. Esse grupo será o responsável pela tentativa de efetivar a melhor comunicação possível, as redes e os fluxos organizacionais existentes e de enfrentar as diversas barreiras que ocorrem freqüentemente na comunicação organizacional, determinadas por fatores mecânicos, fisiológicos, semânticos, psicológicos e burocráticos (KUNSCH, 2003, p. 73 - 76).

 

 O Relações Públicas, dentro desse contexto, busca realizar da melhor forma possível a integração de discursos e interesses dos mais distintos indivíduos integrantes desse sistema social complexo. Através de “negociações”, a argumentação é fundamental para se alcançar um resultado positivo, em que todos ganhem no final. Esta relação de um decidir ou influenciar a decisão do outro é definida como um processo de poder. Apesar de a retórica ter saldo zero, pois todos deveriam ganhar, continua sendo um ótimo exercício de poder.  O público pode estar ou não atento, pode ou não querer assimilar tal discurso proferido e também pode estar influenciado por outras ideologias. Para se mudar atitudes, a argumentação através de informações institucionais é imprescindível. Isso não pode ser confundido com persuasão, pois a definição de comunicação não é o exercício de poder. A comunicação é “o envio de uma informação por um canal na busca de um determinado e específico retorno” (SIMÕES, 2003, p. 117). Enquanto que poder tem o significado de deliberar, agir e mandar com vigor, potência, autoridade, soberania, império, domínio, influência, força, posse, jurisdição, eficácia, efeito e virtude.

 

Na obra de SIMÕES (2003, p. 117 - 118) há elucidações sobre esta importante relação entre retórica, poder e persuasão. Nela constam algumas citações que ilustram bem tal analogia:

 

1) “quando A apresenta argumentos, solicitações ou exortações com B e B, após avaliar, independentemente, os conteúdos dos argumentos sob a ótica de seus próprios valores e objetivos, aceita a comunicação de A com base de seu próprio comportamento, A obtém sucesso em persuadir B” (D. Wrong);

 

2) “quando argumentação é usada, a autoridade é deixada em suspenso” (Hannah Arendt);

 

3) “manipulação apresenta-se como a forma mais desumana de poder, até mesmo mais que a força física, donde pelo menos a vítima é conhecedora e objeto de agressão de seu corpo por outros ou a frustração de suas necessidades básicas” (D. Wrong).

 

Essa visão retrata a persuasão através de argumentos lógicos, sendo estes parte da ação ética e básica da democracia. Porém, a questão ética fica de lado, quando as premissas contêm mentiras ou verdades parciais, conduzindo a certos posicionamentos e mudanças de atitudes das pessoas perante o discurso. Essa manipulação para o poder é condenada por alguns pensadores e pela teoria de Relações Públicas; o importante é a utilização de argumentos e a ponderação deles para mudar ou não sua opinião.

 

Para Paul Garret, conselheiro de Relações Públicas da General Motors/USA (SIMOES, 2003), como “uma atitude fundamental de espírito, uma filosofa de administração que, deliberadamente e com um ‘egoísmo esclarecido’, considera antes de mais nada o interesse público em cada decisão que afete as operações da instituição”. O Relações Públicas alia interesses públicos do sistema privado e os interesses privados do sistema público. Administrar essas vontades e adotar políticas adequadas para cada situação.

 

No sistema social há espaço para a repetição de ciclos e para as novidades de informações. Essas novidades podem trazer outros modos de interpretar a transação dos interesses, das vontades e da comunicação em si, e contêm múltiplas informações que necessitam de discernimento e ponderação. Quando essas ferramentas de decisão experimentam dificuldades na escolha de uma ação ou decisão, em razão de um individuo ou grupo, diz-se que estão em conflito, segundo SIMÕES (2003, p. 69). Conflito pode ser interno ou externo, porém sempre será fomentador do desequilíbrio.

 

O poder exercido pelo Relações Públicas, dentro de um sistema social,  possui uma dimensão política e demonstra-se pela tomada de decisão entre duas ou mais partes, através de instrumentos argumentativos do discurso retórico. Essa relação de poderes é dinâmica, baseia-se num raciocínio lógico e pode ser realizada num processo contínuo entre as partes. É imbuída de vários aspectos relevantes como a correlação direta com todas as características de sua natureza, acrescidas da busca e do controle da informação, da ideologia existente no sistema e também da utilização de certas bases de exercício de poder, estruturadas historicamente (SIMÕES, 2003, p. 111). Dentro dessa perspectiva, a atividade de Relações Públicas se adapta e transaciona perfeitamente para a legitimação de sua retórica no relacionamento humano. Caso esta relação não se estabeleça, um processo em desequilíbrio equacionará um conflito.

 

Para a solução do conflito são necessárias novas alternativas do processo comunicacional. O conflito, como tudo, possui aspectos positivos e negativos, porém a permanência no impasse impede o andamento das trocas e as realizações das partes. Na gestão do conflito é necessário levar em conta as reações provocadas pela existência do conflito, e o esforço para dissolvê-lo, que poderá se fazer através da busca pela solução de problemas (através de novas alternativas), pela persuasão (a busca da troca de objetos), pela negociação (um acordo sem persuasão, um ganha-ganha), pela política (próxima à negociação, mas são colocados os interesses de outros públicos) (SIMÕES, 2003, p. 70).

 

Mas vale aqui mencionar este aspecto do poder e do conflito, pois este se relaciona diretamente com eficiência ou não da retórica da comunicação. Cultivar a comunicação direcionada, particularizada e focada nos diferentes públicos, assim como outros fatores, tem grande importância para evitar o malogro do processo. A ênfase em um público específico aumenta a possibilidade de eficácia da comunicação. Já na comunicação de massa, segundo Mc Quail (apud WOLF, 2003, p. 133), os emissores e receptores constituem grupos sociais que estão estruturados de forma distinta. Os emissores são grupos organizados por níveis estruturais formais, hierárquicos e uma coesão fortemente condicionada por valores profissionais partilhados e por eficazes sistemas de sanções e de recompensas. Já os destinatários não possuem formas de associação como as dos emissores, apesar de apresentarem uma composição em que os laços de grupo e os sistemas de referência estão organizados e, em parte, partilhados. Além disso, dificilmente os destinatários têm uma percepção coletiva de si como os emissores.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Os homens nunca usaram totalmente os poderes que possuem para promover o bem, porque esperam que algum poder externo faça o trabalho pelo qual são responsáveis.”

John Dewey

 

 

 

 

 

3.      RETÓRICA, RELAÇÕES PÚBLICAS E CULTURA

 

 

 

3.1.  Linguagem, comunicação e cultura

 

 

As teorias da linguagem e da comunicação contribuem de forma expressiva para que a cultura e o discurso da sociedade possam ser legitimados. A língua fornece subsídios para a eficácia de tal procedimento, à medida que convenciona o pensamento no aspecto retórico e no aspecto lógico filosófico, além de ser constituída de palavras, que formam as premissas, os argumentos e o discurso.

 

Como denominou Saussure (1989, p. 115), a língua é uma instituição pura e está inserida na complexidade cultural das massas sociais e do tempo. A língua evolui perante a comunicação que se transmuta adaptada a novas realidades culturais de uma sociedade. Toth (1992, p. 3) ratifica Grunig quando diz que a comunicação muda e é recebida por públicos estratégicos após definidos grupos especiais para transferir essa informação e gerar uma oposição ao sentido global retórico, podendo transformar uma cultura através da comunicação.

 

O termo linguagem tem sido tomado com várias acepções. Para alguns, é a faculdade ou potência que tem o homem para entrar em comunicação. Para outros, linguagem é sinônimo de fala. Independente da classificação, a linguagem é um meio de expressão das diferentes formas comunicativas (TONDO, 1973, 31). Segundo Barzin, a linguagem é transmitida por meio histórico, o que contribui para dissipar o sentido e perder a importância dos conceitos e das definições de noções ou de palavras. Segundo ele, não importa se damos a tal palavra esta ou aquela significação, e sim, que os interlocutores dêem às mesmas palavras a mesma significação. “Se, ao contrário, as significações são as de proposições que nos informam sobre o real, sinto-me profundamente realista. Creio que há proposições objetivamente verdadeiras e outras que são objetivamente falsas. Creio que há uma verdade” (apud PERELMAN, 1999, p. 39). Retomar considerações semiológicas convém nesse momento, na medida em que a coerência lógica dos discursos, e da comunicação como um todo, dependem do compartilhamento de mesmos valores sociais.

 

A relação entre o discurso e o conceito de coerência foi considerada por Greimas, uma relação de isotopia, que consiste na “permanência recorrente, ao longo do discurso, de um mesmo feixe de categorias justificáveis de uma organização paradigmática” (GREIMAS, 1981, p.12). Para ele, o discurso deve ser isotopia lógica, baseado segundo a verdade, e a isotopia semântica, formada pelo conteúdo. Esses conceitos contribuem para os estudos de outro semioticista, Y. Lotman, que ambicionou a aproximação da comunicação com a cultura. Através da semiótica cultural e da teoria da informação, concebia a cultura como a totalidade das mensagens recebidas por uma sociedade e a considerava como “um texto infinito”. E ele foi adiante ao elaborar, a partir da problemática da semiose, a definição das variáveis culturais como conotações metassemióticas dos signos, que são próprias de cada comunidade e/ou cada estado cultural.

 

Segundo Greimas (1981, p. 37), as culturas são determinadas - quase à maneira de Foucault – por meio das “atitudes” assumidas em relação a seus próprios signos, e não, em relação aos textos culturais e, menos ainda, em relação aos códigos de comunicação adotados. Já J. Derrida, partindo da complexidade conceitual e semântica de cultura, a concebe como um objeto-signo. Ou seja, a cultura pertencente a uma estrutura que compreende o compartilhamento de símbolos lingüísticos, sociais, políticos e ideológicos (KRISTEVA, 1959). Este é um exemplo de como a cultura regional, local, influencia no sistema lingüístico das sociedades. Fiorin, (2004, p.8) mostra que a linguagem é um fenômeno complexo que pode ser estudado de múltiplos pontos de vistas. Uma vertente aborda a linguagem determinada pelas condições sociais, enquanto a outra revela que a linguagem tem autonomia em relação às formações sociais.

 

Cada língua compõe um campo fônico e icônico distinto. A língua impõe à sociedade um sistema particular e distinto, se comparado a outras realidades culturais. Os indivíduos podem assimilar tanto os fonemas, quanto os símbolos que não existem em sua língua, porém dificilmente se compreenderá a informação por completo. E cada idioma se comporta singularmente, conforme a história e o princípio cultural a que está relacionado, como se pode verificar na comparação entre o idioma português e alemão. Não é à toa que a língua do centro da Europa é considerada o “idioma dos filósofos”, pois toda sua estrutura morfológica, de sintaxe e semântica comporta uma complexidade e amplitude apreciável. Em uma mesma palavra, é possível compreender uma série de idéias.

 

Para explicar melhor, adotaremos a palavra “sociedade”, que em português designa a coletividade, a totalidade, um agrupamento de indivíduos que convivem num mesmo espaço de tempo e geográfico e que podem compartilhar ideologias e normas comuns. Tudo isso, representa a simples palavra “sociedade”, enquanto que, na língua alemã, o termo Gesamtgesellschaft significa, literalmente, a sociedade como um todo. Dizer em português “sociedade-como-um-todo” soaria quase redundante, pois essa característica de simplificação e síntese do vocabulário português, ilustra, de certo modo, a cultura e ideologia do meio em que a pratica. Se fosse para estereotipar, poderia se denominar a língua alemã como uma “cultura acadêmica” (por ser mais específica), enquanto a portuguesa como uma “cultura pragmática” (que sintetiza num vocábulo vários significados).

 

Cabe à língua adotada por uma sociedade o papel de formalizar os valores, crenças e aquilo pertinente a consciência racional dos indivíduos que a compõem. Mais que isso, a língua fomenta o próprio convívio social dos relacionamentos interpessoais. É um fator primordial para a efetivação da comunicação e, conseqüente, troca de juízos. Como dizia o filósofo austríaco, Ludwig Wittgenstein, “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”.  A linguagem estabelece as dimensões e os limites da comunicação entre as culturas.

 

Saussure (apud ZILVINAS, s.d), fundamentado das dicotomias da língua, aponta que a sociedade está submetida a determinantes lingüísticos e à realidade social. Sendo, assim, uma mesma atitude do comportamento humano, sugere que todas possíveis estruturas comparáveis e relacionadas interajam nas ciências naturais e humanitárias. Para Saussure, a linguagem pode ser descrita através dos seguintes princípios 3:

1) A linguagem é um objeto formal - uma entidade de relações; como tal é comparável a outros objetos formais e está sujeito a análise científica. A linguagem pode ser descrita por outra linguagem, por exemplo, uma metalinguagem, que consiste em condições definidas com um único significado. 

2) A linguagem é um objeto semântico - uma arquitetura de formas que contêm significado. 

3) A linguagem é um objeto social - uma instituição coletiva. 

 

Émile Beneviste classifica a linguagem através de duas propriedades essenciais. A primeira refere-se à propriedade que a faz produzir e reproduzir a realidade por meio da capacidade simbólica; a segunda, como comunicação intersubjetiva.  Para ele, a realidade é fruto do intermédio da linguagem, que faz renascer pelo seu discurso o acontecimento e a sua experiência do acontecimento. O exercício da linguagem é a troca e o diálogo, o que “confere ao ato de discurso dupla função: para o locutor, representa a realidade; para o ouvinte, recria a realidade. Isso faz da linguagem a própria constituição da comunicação intersubjetiva” (GUERRA, s.d).

 

É totalmente necessário conceber a língua do relacionamento humano social como um fator da realidade cultural. Seria ilusório acreditar que a língua é meramente um elemento para solucionar entraves específicos da comunicação e da reflexão. A linguagem e a cultura são produtos da capacidade de construção simbólica, além de legítimas e peculiares ao ser humano. A língua possui caráter semiótico, sígnico e discursivo o que lhe confere a propriedade de retratar uma realidade histórica e ideologicamente.

 

Para o aprofundamento da pesquisa e da fundamentação teórica da analogia entre língua, cultura e comunicação, a Teoria da Linguagem e da Comunicação contribuem de forma significativa. Elas conceituam proposições relevantes da interação complexa do relacionamento humano inserido numa dimensão semiótica da sociedade. As palavras ganham sentido e se encadeiam em relações lógicas, “do mesmo modo, cada acontecimento da narrativa leva a um outro, numa linha causal nítida” (DUBOIS, 1974, p. 248). A necessidade de compreensão mútua e do compartilhamento de “representações coletivas” (GREIMAS, 1981, p. 39) constitui o homem inserido num panorama de globalização e diversidade cultural.

 

Outro ponto de vista sobre a multidisciplinaridade foi assinalado por Laurent Jenny (DUARTE, 1997. p. 13), cuja teoria indica uma relação de permanente realização, transformação e transgressão de umas obras com outras, ratificando a cultura eminente. Enquanto outros estudiosos consideram a necessidade das distintas áreas estarem, por algum ponto, vinculadas, Jenny propõe um conceito de intertextualidade mais independente. Segundo ele, “mesmo quando uma obra se caracteriza por não ter nenhum traço comum com os gêneros existentes [e com outras disciplinas relacionadas], longe de negar a sua permeabilidade ao contexto cultural, ela confessa-a justamente por essa negação”. Esse paradigma revela uma concepção de grande pertinência para a intertextualidade, que designa a transposição de um ou vários sistemas de signos em outro.

 

É fundamental para o processo das funções administrativas internas e do relacionamento das organizações com o meio externo que o sistema comunicacional se efetive de maneira apropriada. Sua direção e sua rede de transmissão são estabelecidas pelos fluxos dos processos de comunicação e intercomunicação da sociedade e demonstram o tipo de poder exercido. O relacionamento e a integração entre as sociedades, além de uma estrutura auto-suficiente e auto-contida, perfazem as necessárias relações constituídas por meio da comunicação e na comunicação.

 

Segundo Gaudêncio Torquato do Rego, o processo comunicacional compreende estruturar as convenientes ligações entre o microssistema interno e o macrossistema social, estudar a concorrência e analisar as pressões do meio ambiente, gerando as condições adequadas para crescimento organizacional. Colaboram, dessa forma, as informações trocadas e provenientes do sistema sóciopolítico, econômico-industrial e do sistema inerente ao clima interno das organizações. “Um processo comunicacional interno, que esteja em sintonia com o sistema social mais amplo, propiciará não apenas um equilíbrio como o surgimento de mecanismos de crescimento organizacional” (apud KUNSCH, 2003, p. 70). 

 

Os fluxos de comunicação existentes devem ser ampliados e estabelecidos de forma horizontal pelo profissional de relações públicas, para permitir que a circulação de informações seja eficaz e tenha ótimo alcance. Através de um discurso institucional, é possível propagar a cultura social, seus interesses públicos e privados, diagnosticar ameaças e oportunidades para erradicar os conflitos estabelecidos por ruídos comunicativos. As estratégias de comunicação propõem garantir a excelência do relacionamento humano pela excelência de ferramentas sensíveis à totalidade. Leva-se em conta o sistema global, a unidade, e não apenas seus fragmentos.

 

A comunicação legitima o discurso social de uma realidade cultural complexa através de sua língua e dos processos sistêmicos ao qual está condicionada. Essa linguagem constitui uma rede simbólica, versada em signos e relacionamentos interpessoais, fomentadora da ratificação de uma realidade histórica e ideológica. O estudo interdisciplinar dessa relação lança proposições e institui-se com grande base conceitual contribuindo para a compreensão do discurso social e do comportamento humano em geral.

 

 

3.2.  Cultura, poder e a retórica das Relações Públicas

 

 

A cultura, enquanto superestrutura, não deveria ser concebida por um poder de produção de verdade, de inteligibilidade e legitimidade. A pluralidade e complexidade dos conflitos sociais emergentes da sociedade de massa estão sendo achatados em razão da negação de sentido e de legitimidade de todas as práticas e formas de produção cultural que não provém do centro. Além disso, há ainda a negação do popular como sujeito, não só pela industria cultural, mas também pela concepção dominante do político que tem sido incapaz de assumir a especificidade do poder exercido a partir da cultura (BARBERO, 2003, p. 96 - 97). As relações interpessoais, assentadas na pluralidade da cultura, na persuasão, na credibilidade, na liderança e na capacidade de modificar atitudes, estabelecem relações de poder.

 

Tanto que o poder econômico e o poder político compõem os dois agentes que atuam na estrutura social, determinando o tamanho e a forma da economia, o nível do emprego, o poder aquisitivo do consumidor e os investimentos. Essa relação entre os poderes raramente é contestada (VIEIRA, s.d). No entanto, conduções visíveis e outras ocultas de informações, num âmbito social, impedem o contorno nítido deste poder na sociedade plural e mistificada de hoje. Esta era da informação determina a crise que se resolve em uma reciclagem do sistema que teria a dinâmica econômica na informação com um novo e único espaço de produção de poder e de sentido. Além disso, sua legitimação política estaria fundada na separação axiomática entre informação e significação, conforme demonstra a obra de Baudrillard, especialmente a partir de Crítica da Economia Política do Signo, a qual demonstrará a total dissolução dos referentes. “Quanto mais informação, menos sentido” e “quanto mais instituição menos social”, propôs Baudrillard (apud BARBERO, 2003, p. 97).

 

Este espaço de interação e troca constitui o “sítio simbólico”, considerado por  Hassan Zaoual (2003), como “cosmovisão do mundo”. O sítio é um meio em que se encontra subjacente aos comportamentos individuais e coletivos e a todas as manifestações materiais de um certo lugar, de uma certa época. Sua identidade tem caráter único, pois concentra as diversas socializações entre gerações, as quais podem ter semelhanças com outros grupos humanos vizinhos ou distantes. A diversidade de múltiplos sítios de uma região, nação ou de um conjunto da humanidade, fundamenta a unicidade que determina o caráter único do sítio.  “Assim, a diversidade é onipresente e proliferante em razão dos intercâmbios e da incessante mudança que caracterizam todos os meios sociais. A humanidade é una e diversa” (ZAOUAL, 2003, 112)

 

O profissional de Relações Públicas, inserido nessa sociedade singular, aberta e dinâmica do sitio simbólico, com modo de produção capitalista, possui um papel de extrema relevância, se considerarmos de sua função o exercício de captar da multiplicidade, relacionamentos sadios e eficazes para o conjunto social. Segundo Peruzzo (1986), as relações antagônicas que constituem a face capitalista atual percorrem desde os benefícios da burguesia, através da propriedade privada dos meios de produção e da distribuição desigual do produto do trabalho, até a globalização das forças determinantes do momento histórico.

 

O estudo teórico das Relações Públicas polariza os conhecimentos das ciências sociais e humanas, porque seu objetivo é o da legitimação do poder do homem para marcar, manter e ampliar seu espaço na sociedade. E mais: sua atividade contempla a compreensão, previsão e controle dos fenômenos da sociedade plural. Adotar uma proposta interdisciplinar confere à atividade de Relações Públicas um olhar além de sua função dialogal. Ela lida com um universo simbólico que identifica e decodifica as leis subjacentes aos fenômenos e pode apresentar um esforço que experimenta novos discursos e rompe com paradigmas pré-estabelecidos pela cultura social (VIEIRA, sd).

 

A cultura de uma determinada sociedade compreende uma totalidade complexa de conhecimentos, crenças, leis, hábitos e capacidades adquiridos pelo homem constituinte dessa sociedade. Portanto, as culturas são muito diversas e particularmente singulares. E, segundo Warnier (2000, p. 30), há dois tipos de cultura: a do ministério e a dos etnólogos. A indústria como cultura retrata a situação em que as culturas singulares acabaram se expandindo junto com o fenômeno da globalização. Ao mesmo tempo em que os mercados e fronteiras foram perdendo limitações, a cultura, apesar de “turbulenta”, permanece localizada. Deve-se levar em conta conceitos como o etnocentrismo, o racismo, a aculturação e o etnocídio. Warnier define etnocentrismo como “a identificação normal de cada indivíduo com a sociedade à qual ele pertence e a valorização de sua própria cultura”. Sob pena de ser marginalizado, todo indivíduo é, e deve ser em alguma medida, etnocentrista” (WARNIER, 2000, p. 49).  Enquanto que James Lee (apud SCHULER, s.d.), ao discutir a comunicação na globalização organizacional, destaca que as diferentes culturas trarão distintas conseqüências sobre as estruturas culturais locais e as instituições.

 

A multiplicidade e pluralidade da sociedade hoje dificultam o tratamento com paradoxos sociais administrativos transcendendo os limites, interpretando os sistemas, se remodelando e criando relacionamentos sadios. E o Brasil, com seu “jeitinho brasileiro”, traça princípios culturais que lhe favorecem, uma vez que possui capacidade e competência de transitar num universo paradoxo. Ele situa-se tanto entre os líderes e liderados, o instituto e o pessoal, o paternalista e o flexível, além de ser reconhecido mundialmente como um dos países mais criativos. (MOTTA e CALDAS, 1997, p. 67 - 69).  Esse é o poder cultural que a sociedade brasileira revela através de suas atitudes, sua linguagem e seu pensamento. É a sua retórica social. O profissional de Relações Públicas deve estar sempre atento a estas manifestações, estereótipos, mitos e paradigmas estabelecidos pelos discursos sociais.

 

Considerando a problemática apontada por F. Engels, em que o Estado não é, “de modo algum, um poder que se impôs à sociedade de fora para dentro; tampouco é ‘a realidade moral’, nem a ‘imagem e a realidade da razão’, como afirma Hegel. É antes um produto da sociedade, quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento” (Peruzzo, 1986). Segundo Engels, o poder nasceu da sociedade, porém mantém um posto de superioridade, acima dela própria e cada vez se distanciando mais. Esta sociedade acabou se confundindo com ela mesma e está dividida por antagonismos complexos de se conciliar. Para o filósofo, o Estado assume uma perspectiva de relacionamento opressor, impõe-se como um órgão de dominação de classe e de submissão de uma classe por outra. Através de uma política ideológica de ordenação social, possibilita a legalização dessa submissão, amortecendo a colisão de classes.

 

O poder privado constitui-se de interesses comuns de toda sociedade e é contemplado pela “filosofia da avareza (o ideal do homem honrado digno de crédito e, sobretudo,) a idéia do dever que tem o individuo de se interessar pelo aumento de suas posses como um fim em si mesmo” (WEBER, s.d). Com um `espírito’ (conduta moral e ética), o capitalismo vem a ser um fenômeno de massa e possível de conduzir uma consciência responsável ou não, passível do livre arbítrio individual e coletivo da sociedade. Esta visão provoca igualmente uma estrutura de concorrência e deslealdade entre as gestões públicas e até mesmo privadas, que acabam por gerar disputas tributárias e partidárias, prejudicando o bom fluxo sistemático da relação entre tais entidades.

 

O poder se institui através da utilização de códigos lingüísticos, ou seja, a linguagem. Serão estas palavras que construirão os caminhos que auxiliam e fortalecem as relações interpessoais entre líderes e dominados na sociedade pós-moderna. Através da linguagem, o homem simboliza pela busca em compreender os signos e estabelece a construção de seu mundo por meio de relações de significação entre realidades diversas (FREITAS, 2004).

 

Os estudos sobre a lingüística estrutural implicam uma reflexão ampla sobre a linguagem, que leve em conta o fato de ela ser uma instituição social, o veículo das ideologias e o instrumento de mediação entre os homens e a natureza e entre os homens e os outros homens. Portanto, é preciso considerar que a linguagem não é uma instituição igual às outras. Mas já se tornou clichê afirmar que nas relações entre a linguagem e a ideologia, a linguagem é instrumento de poder e que os segmentos sociais dominantes tentam ridicularizar a palavra dos dominados (FIORIN, 1988, p. 6 - 7).

 

O profissional de comunicação, em especial o Relações Públicas, passa a integrar o processo em busca de estabelecer um clima de harmonia social entre os distintos poderes. O Relações Públicas conduz, no campo das relações sociais, seu discurso de forma a beneficiar um público especifico, através do uso adequado da sociolingüística. Essa linguagem deve estar totalmente ajustada à filosofia e os objetivos deste público. Com atitudes coerentes com a administração, satisfazendo os públicos envolvidos e estabelecendo a sinergia necessária para o bom funcionamento do sistema. Segundo Ney Peixoto do Valle, “a conscientização interna, no sentido de equilibrar interesses, é provavelmente a atividade primeira de um executivo de relações públicas” (apud PERUZZO, 1986).

 

O estudo da cultura organizacional contribuirá para legitimar a comunicação quando esta consegue desprender-se de conceitos e arquétipos, tanto sobre o aparelho organizacional, quanto sobre o comportamento humano. Considerando a multiplicidade antagônica estabelecida no sistema panorâmico atual, a necessidade de se atribuir uma alma, com sentido, direção e fundamentar o “homem situado no tempo, no espaço e no imaginário” (ZAOUAL, 2003), torna-se essencial para atribuir valores mais humanos na participação dessa tecnológica e científica aventura. A mundialização favorece a destruição das raízes da existência autônoma dos homens e das sociedades como um todo. Sendo os conceitos formas concentradas e racionalizadas dos mitos, conduzem uma sociedade em certo momento de sua história. Formam-se através da pluralidade de modelos criados e destruídos diariamente, um paradigma chamado civilização da competição. “É a vingança do irracional sobre o racional, das letras sobre os números, da cultura sobre a anticultura do economicamente puro, etc” (ZAOUAL, 2003).

 

Com o equilíbrio e estabilidade, as condições sociais tornam-se favoráveis para a produção do capital, meta primeira de toda instituição consentida no modelo capitalista. Se forem norteadas na busca pela transparência do diálogo e da negociação, estabelecem uma ótima relação entre seus públicos e conquistam, através da integridade (VIEIRA, 2004), valores ímpares de sua cultura organizacional de relacionamento com o meio externo, como é a credibilidade. Quando se refere a trocas do meio interno com o externo, é importante ressaltar que a cultura interna está totalmente conectada com o seu entorno, conforme ilustra Maria Ester Freitas (apud FREITAS, 2004).

 

Durante os relacionamentos interpessoais, as pessoas se apropriam de palavras para exprimir e comunicar não somente informações, mas também uma imagem de si e da organização a que estão representando. “A sociedade define, codifica e impõe os rituais que presidem seu desenrolar” (BEDARD, s.d.). É ela que compõe com maestria todos acordes e compassos de uma sinfonia completamente atonal e complexa: os relacionamentos “intersociais” (ou seja, interpessoais inseridos numa sociedade). Considerando que não há unicidade cultural, e sim, conteúdos e características similares, que por algum ângulo convergem em sinergia, as culturas mais fortes acabam por sustentar o processo de socialização (FREITAS, 2005).

 

Saber escutar e discursar é necessário, pois o exercício da utilização ética da palavra, promove a reciclagem permanente de ideologias e novos conceitos (BEDARD, s.d.). Esses conceitos e verdades se desfazem concomitantemente à sua criação, como se fossem uma constante desconstrução da realidade de cada interlocutor passivo ou ativo deste diálogo, da mesma forma com qual se escreveria um livro com uma borracha, em que as palavras “grafadas em branco” poderiam ser interpretadas apenas pelo escritor. Cada página “escrita” ficaria uma folha em branco, completamente vazia, disponível para que o sujeito-leitor criasse sua própria história. Somente ele seria capaz de decodificar seus sinais e símbolos criados, pois trata-se da interpretação dele sobre uma história já apagada. Outra analogia seria um locutor discursando em silêncio. O poder do silêncio é grandioso, porém o único sujeito que assimilaria o conteúdo discursivo seria o próprio locutor.

 

Um dos grandes poderes da retórica é a premissa da verdade. São as palavras, conceitos e valores. Mas o conceito de verdade muda a todo o momento e pertence às múltiplas culturas, que refletem as diversidades sistêmicas e globais, ratificadas pela pluralidade de crenças, valores, ideais, políticas e cultos. Essa teoria contradiz a idéia de cultura única. Talvez a multiplicidade cultural também seja reflexo da modernidade caótica, a qual Weber (2001) acredita ser a causadora da perda do significado da vida (neste caso, da “obra escrita em branco”) e da perda da liberdade.

 

As relações interpessoais, assentadas na pluralidade da cultura, na persuasão, na credibilidade, na liderança e na capacidade de modificar atitudes, estabelecem-se como relações de poder. Todo relacionamento interpessoal é uma relação de poder. E este poder é mais que uma estrutura de autoridade, é uma relação instrumental entre os indivíduos sociais. O discurso, as ações e atitudes podem representar o tipo de relação que se estabelece com o outro. Há diversos tipos de poder, um deles é a coação, uma forma de anular o indivíduo através de uma imposição física, uma lei ou burocracia. Há o poder negativo, considerado um reflexo do stress social e, dentre tantos outros, há também o poder compensatório, muito freqüente em instituições privadas, religiosas e familiares (FREITAS, 2005). O poder é diferente e independente da autoridade, pois, através dessa autoridade, o indivíduo tem seu reconhecimento facilitado pelo prestígio alcançado.

 

As sociedades são movidas pelo agir, baseadas na transparência, na linguagem, subjetividade e, como as ciências humanas e sociais definem, na consciência de premissas afinadas às políticas sociais. Foucault (2005) já havia colaborado com essa problemática através de sua lucidez sobre a importância que une o poder e o saber, as reações de dominação e as relações simbólicas. Este poder é capaz de coagir dentro e fora das sociedades, nos níveis hierárquicos tanto de dominação quanto de subordinação, nas linguagens e no simbólico.

 

Se esse poder fosse utilizado para o benefício social, através da condução de uma comunicação de duas vias, agregada de valores globais, porém calcada no aprofundamento das questões locais, contribuiria de forma relevante na busca de resultados satisfatórios da dicotomia multicultural dificilmente compreendida. O profissional de relações públicas busca uma gestão ciente da fragmentação, da singularidade particular de cada grupo e subgrupo e das significativas diferenças entre os níveis hierárquicos (FREITAS, 2004). Estes níveis existentes dentro e fora da sociedade, transitando entre o líder e o liderado fluente e harmoniosamente. Consciente deste prisma, o profissional de Relações Públicas torna-se significativo para o aprimoramento de um espaço social mais digno e plausível de desenvolvimento.

 

Ressaltando que sua competente atuação na valorização das relações humanas, na tentativa de gerar novas atitudes comportamentais na sociedade, o relações públicas produz com mais eficácia uma comunicação excelente e simétrica. O profissional destaca o significativo poder da palavra na dinâmica cultural da sociedade, além do aperfeiçoamento da linguagem, as quais são capazes de gerar entraves e possibilidades conforme se solidificam nos discursos sociais. Tais ferramentas, como o poder, a linguagem, a comunicação e o relacionamento interpessoal, determinam a cultura da sociedade. Deve-se levar sempre em conta que “o homem é um principio motor de ações”, segundo Aristóteles. Ou seja, o homem é um agente poderoso neste processo de legitimação da comunicação pela gestão retórica dos relacionamentos humanos.

 

 

3.3.  Contribuições da retórica para análise da imagem política atual

 

 

Atualizando o discurso, o escândalo que o Congresso Nacional se encontra hoje ilustra bem a utilização da retórica persuasiva, guiada pelo logos e pela utilização de figuras de estilo da retórica estética. Através de argumentos racionais, os políticos do Congresso que participam das CPIs estabelecem um processo comunicativo gerador de conflitos e relacionamentos descompassados. Suas duras premissas e acusações carecem de vontade de compreensão mútua e harmonia entre os participantes, além de revelarem uma rigorosa técnica argumentativa que provocam distanciamento, discordância e atrito, apenas com fim de convencer o adversário. Essa perspectiva competitiva se atém em ferramentas de poder da lingüística e da argumentação retórica. Este trabalho não é um conjunto acabado de idéias, e sim, um esboço e linhas de reflexões. Portanto, este tópico não tem pretensões de se fazer uma análise do discurso político, mas uma apresentação de aspectos argumentativos e retóricos utilizados no episódio de grande relevância para a sociedade brasileira.

 

Para a concepção do discurso interpessoal, a língua assume total relevância. Ela é esculpida por um sistema de valores, composto de signos que materializam a linguagem e determinam algumas características peculiares de cada orador. Por meio de um sistema de valores, as discussões do relacionamento humano propagam esses conceitos baseados na consciência individual e coletiva e formam esse processo sígnico ideológico e discursivo.

 

Para que o entendimento se estabeleça, é necessário que os interlocutores compartilhem de mesmos fatores sócio-culturais, sígnicos e lingüísticos. Caso contrário, o objetivo primeiro, que é a comunicação eficiente, não se mantém, ou pior, nem se institui. A discussão que se pode acompanhar nos dias de hoje diz respeito à revelação de fraudes, corrupção e, por que não, da busca exacerbada pelo poder numa sociedade totalmente conivente culturalmente com tais atitudes. A nação se diz vítima e nada protesta. A ‘Nação’ se diz vítima e usa da emoção para sensibilizar a sociedade de massa através dos meios de comunicação. Os ‘réus’ se dizem vítimas e omitem informações. Todos sustentam premissas plausíveis, recheadas de componentes indicativos, icônicos e simbólicos verbais. Mas qual a síntese? A que conclusões estão chegando? Até agora, vêem-se divergências de argumentações em busca de preservar a si e o outro. A melhor palavra, em muitos casos, é o silêncio, ao invés da verdade.

 

Todos reconhecem e decodificam a mesma simbologia ideológica, porém nem sempre concordam e compartilham dos mesmos valores e silogismos. Em princípio, um partido e, até mesmo um governo, assentam tais valores, ideais e perspectivas políticas. Contudo, o momento brasileiro atual descobre uma transfiguração de discursos que estão provocando mudanças relevantes na estrutura sistêmica pública e mesmo privada do Brasil.

 

O rompimento de laços históricos e valores institucionais desacreditados ratifica o conflito gerado pela quebra de identidade simbólica, pelo insuficiente interesse na compreensão mútua entre as partes e pela adoção de uma retórica baseada num discurso persuasivo, intolerante e impaciente. Habermas (apud SIMÕES, 1995, p. 112) considera que as legitimações servem para sustentar a vontade de como e por que as instituições empregam o poder político com objetivo de tornar realidade os valores indispensáveis para a identidade da sociedade. 

 

A cena contemporânea política revela o predomínio de argumentos nada comunicativos, pois não prevê a comunicação simétrica de mão dupla, em que interlocutores percebem o outro, perguntam e respondem, levando em consideração que ambos membros do diálogo são totalmente pertinentes para a concretização de idéias válidas. Torna-se, logo, uma comunicação enfatizada no juízo de valores, ofensas, defesas, preocupada em convencer a opinião pública independente da maneira que for. Aristóteles utilizaria as paixões do diálogo para explicar tal pluralidade de opiniões que geram incerteza do caos sensível e que necessita do logos e da estética para se legitimar.

 

Ao se tentar esclarecer os pontos delimitantes do discurso, anteriormente foi citado um fator crucial, que é a vontade de verdade. Igual a outros sistemas que excluem e prejudicam o discurso, a vontade de verdade busca apoio e sustentação num suporte institucional. Essa vontade de verdade é conduzida por um conjunto de práticas de aplicação do saber na sociedade e busca entender como o discurso é valorizado, distribuído, repartido e, de certo modo, atribuído. Os partidos políticos funcionam exatamente nesses moldes descritos por Foucault (2004). Os partidos e os políticos agem coercitivamente através do poder a eles conferido, tendo em vista o exercício do discurso baseado na vontade de verdade.

 

Partindo da teoria de Robert Dahl (VIEIRA, s.d.), sobre liderança e legitimidade, pressupõe-se que líderes de um sistema político adotem doutrinas que explicam e justificam sua liderança. A “sociedade política” cria uma ideologia, cujo objetivo é prover sua liderança de legitimidade através de um conjunto de doutrinas. Ou seja, busca converter sua influência política em autoridade e poder, mais pela convicção que pela coerção. Esta ideologia justifica tanto a liderança quanto o sistema político em si e reproduz o mérito da retórica na valorização de tal doutrina.

 

 

 

Para Dahl, uma ideologia dominante altamente desenvolvida geralmente contém fórmulas de apreciação da organização, da política e dos líderes do sistema, bem como uma descrição ideal da maneira pela qual o sistema realmente funciona, e que reduz o hiato entre a realidade e os objetivos visados pela ideologia (VIEIRA, s.d.).

 

 

O que talvez seja tão ou mais prejudicial do que a desigualdade e os problemas sociais é a falta de institucionalização da democracia, seja ela um conjunto de regras formais estabelecidas para a disputa entre propostas políticas ou enquanto cultura política - comportamentos e valores éticos, não regidos pelas leis. Dahl (2002) apresenta benefícios que tornam a democracia mais desejável que qualquer alternativa viável a ela. Esses benefícios são que a democracia ajuda a impedir o governo de autocratas austeros e perversos, garante aos cidadãos uma série de direitos fundamentais que os sistemas não-democráticos não proporcionam, assegura aos cidadãos uma liberdade individual mais ampla que qualquer alternativa viável, ajuda a proteger os interesses fundamentais das pessoas; a liberdade de expressão e de defesa de seus pensamentos perante a sociedade de massa.

 

Apenas um governo democrático pode proporcionar uma oportunidade máxima para os indivíduos exercitarem a liberdade de autodeterminação, de expressão, ou seja, vivem sob leis de sua própria escolha e somente este governo pode proporcionar uma oportunidade máxima do exercício da responsabilidade moral. Dessa forma, há um desenvolvimento humano mais pleno que qualquer alternativa viável e somente num governo democrático pode-se promover um grau relativamente alto de igualdade política.

 

Um processo democrático não pode ser explicado se apenas apresentar procedimentos, como a regra da maioria, para fazer aquilo que é inerentemente mau. Isto é: admitir que algumas pessoas forcem as outras. Um estado democrático continua a ser um Estado, continua a ser coercivo e continua a ser mau. Para Dahl (2002), tornar um Estado democrático não transforma um mau estado num bom estado. No sistema democrático, a igualdade política que prevalece é que cada um é o melhor juiz do seu próprio direito, pois os homens, naturalmente, têm propensão à autonomia e liberdade. Ele acredita que uma sociedade democrática e de igualdade política pode existir sem o sacrifício da liberdade, bastando estender os princípios democráticos à ordem econômica.

 

Uma nova zona de conflito só pode surgir no lugar da oposição latente entre as classes, quando o capitalismo tardio “precisar tornar-se imune contra o questionamento à sua ideologia de fundo, pela despolitização da massa da população: justamente no domínio público, governado pelos meios de comunicação de massa”, afirma Habermas (apud VIEIRA, s.d). A legitimidade de uma dominação deve ser considerada apenas como uma probabilidade de poder. É aí que se encontra a crise de legitimação propriamente dita, em que, marginalizado de sua função de instrumentalidade do econômico, “o sistema político é obrigado a assumir explicitamente tarefas ideológicas. Com o conseguinte rechaço que isso gera e a mobilização que produz no âmbito do cultural” (BARBERO, 2003, p. 100).

 

A obediência e a dominação estão orientadas pela crença em sua legitimidade. A adesão pode ser praticada por indivíduos, partidos e sociedades inteiras em razão de oportunismos; pode ser praticada efetivamente por causa de interesses materiais próprios, ou ser aceita como algo irremediável em virtude das debilidades individuais e do desamparo (VIEIRA, s.d.).  Não se sabe quais dessas razões foram mais determinantes para o escândalo do mensalão que reina em absoluta atualmente na mídia e nos discursos da sociedade brasileira. Uma sociedade passiva e paciente. Indignada, porém esperançosa, que pouco reage às revelações de corrupção no governo, pois prefere o poder do silêncio e da escuta. Ouve e analisa os discursos de acusações e ameaças entre parlamentares e as vítimas. Segundo especula-se, empresas privadas financiavam com altas propinas ações do Partido dos Trabalhadores, inclusive a campanha que elegeu seu candidato, Luiz Inácio Lula da Silva, como presidente.

 

As denúncias que deram origem à CPI começaram quando o deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) abriu publicamente que “congressistas aliados recebiam o que chamou de um "mensalão" de R$ 30 mil. Admitiu ter recebido R$ 4 milhões do PT para caixa dois de campanha das mãos do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza e foi citado como o líder do esquema de corrupção nos Correios. Segundo o deputado, o dinheiro do "mensalão" vinha de estatais de empresas privadas e chegava a Brasília em malas para ser distribuído em ação comandada pelo ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, com a ajuda de "operadores" como o próprio Marcos Valério e o deputado José Janene (PP-PR).  O ex-presidente do PTB poupou Lula, mas envolveu o ex-ministro-chefe da Casa Civil, deputado José Dirceu (PT-SP), e outros integrantes do que ele chamou de "cabeça" do PT: José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno” (FOLHA Online).

 

De maneira muito interessante, o professor de ética e política da Unicamp, Dr. Roberto Romano, elucida em entrevista com Lillian Witte Fibe, no UOL News do dia 25 de agosto de 2005, às 15:24, que essa situação atual assemelha-se a um trem fantasma, onde cada curva revela monstros diferentes: esqueletos, bruxas, o publicitário e pagador dos mensalões, Marcos Valério, o presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral (PT-MS), e as pessoas com a mão na cabeça gritando de medo. Até que chega o fim do túnel, só que ainda não se sabe o final deste turbulento brinquedo real.

 

Foram criadas alianças e relações entre público e privado de formas ilícitas. A busca pelo poder, pela dominação e legitimação forçaram uma posição carente de valores éticos e morais para com a sociedade que representam. A dialética no Congresso Nacional talvez fosse o esperado para saciar os entraves evitando a realidade aleatória e aberta desta inteligibilidade, conforme propõem Foucault (2005, p.5). Porém, as conclusões estão aquém das necessidades sociais para dedução do raciocínio mais lógico.

 

O pivô das denúncias que deram origem à CPI foi o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que praticamente definiu o rumo das investigações. Buscou-se, portanto, averiguar quem foram os "beneficiados" pela movimentação financeira do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza por meio de contas bancárias no banco Rural e BMG. O empresário foi apontado como o operador do suposto "mensalão" por Jefferson.

 

 

As premissas não se comprovam verdadeiras, e o discurso não reproduz com exatidão o pensamento dos depoentes na CPI. Muito se poderia dizer sobre cada um deles, analisando cada uma das retóricas e a riqueza das comunicações não-verbais que surgem, porém não é esse o foco do trabalho. Deseja-se aqui apenas fazer um comparativo real e atual da teoria proposta. Levantar dados e questões que abrem cada vez mais a discussão, ao invés de provocar um desfecho. Até porque as relações de poder, cultura da sociedade de massa, a linguagem e o pensamento, as paixões e valores dos discursos têm incrível relação com o exercício da política e das Relações Públicas.

 

Da mesma forma, o profissional de Relações Públicas exerce em sua atividade o gerenciamento das relações de poder, visando a legitimação de valores através do discurso retórico, atraído pela simetria dos relacionamentos interpessoais. É justamente nessas relações de poder que se observa a relevância dos discursos. Simões (1995) afirma que um dos aspectos das Relações Públicas é funcionar como subsistema de apoio para a dominação. Os subsistemas de apoio são os que levam a efeito as transações da sociedade e auxiliam nesses processos. Esse meio é que dá suporte para tais transações e para garantir as relações favoráveis. É por isso que, dentro de uma sociedade, se desenvolvem subsistemas que institucionalizam as relações com o ambiente e garantem tal apoio.

 

E como disse Hume (s.d.), na seção VIII, “Da Liberdade e da Necessidade”:

 

O que seria da história se não tivéssemos confiança na veracidade do historiador, de acordo com a experiência que temos adquirido dos homens? Como a política poderia ser uma ciência, se as leis e as formas de governo não tivessem influência uniforme sobre a sociedade? Onde estaria o fundamento da moral, se cada caráter particular não tivesse um determinado poder de produzir sentimentos particulares e se estes sentimentos não influenciassem nossas ações de maneira constante? E quais poderiam ser nossas pretensões quando aplicamos nossa crítica a um poeta ou a um autor elegante, se não pudéssemos decidir se a conduta e os sentimentos de seus personagens são ou não são naturais, em tais caracteres e em tais circunstâncias? Parece quase impossível, portanto, que nos ponhamos a fazer ciência ou atuar de alguma maneira, sem reconhecer a doutrina da necessidade, e esta inferência que vai dos motivos aos atos.

 

 

 

Na política poderia se dizer que ocorre um exagero e um equívoco nessa busca pela experimentação de novos discursos e pelas relações de troca, sejam elas experiências ou favores ilícitos! A maneira como exercem e abusam do poder retrata o modelo político-econômico de uma sociedade. Poder-se-ia fazer uma analogia com Muniz Sodré (in VIEIRA, s.d.), que valoriza a busca de novas práticas com objetivo de quebrar paradigmas. Segundo ele, “a ausência dessa experimentação faz com que a educação seja uma questão de verbo e não de verba”. Incrível a semelhança dessa frase, dirigida à educação, com o exercício da política. Contudo, verifica-se pela atual situação de crise do governo brasileiro, que fizeram tudo ao contrário: experimentação demais com foco absoluto na verba e não no verbo. Agora precisarão do verbo para explicar a verba!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

A teoria das Relações Públicas utiliza ferramentas da retórica para legitimar os discursos institucionais perante a sociedade. A arte da argumentação e o exercício do poder contribuem na efetivação do processo comunicacional e no relacionamento entre indivíduos envolvidos por identidades culturais e lingüísticas de uma sociedade heterogênea. Com uma abordagem atraente da perspectiva das relações humanas e da dinâmica social do discurso, as Relações Públicas experimentam de novos silogismos para provocar impressões e estabelecer possibilidades para o diálogo e a interação dos homens na sociedade.

 

Partindo de uma perspectiva multidisciplinar, panorâmica, este trabalho buscou relatar uma pesquisa inicial de ampla abrangência sobre as relações da retórica com a teoria das Relações Públicas. Foi inevitável a interdisciplinaridade, tendo em vista a complexidade estrutural de tais relações. O ser humano, imbuído de aspectos culturais e fomentador dos discursos retóricos, utiliza e cria, concomitantemente,  signos, valores, crenças, linguagens e ideologias, que promovem o conjunto de convenções sociais. Estas, por sua vez, através das relações lógicas ou subjetivas, trazem aspectos imprescindíveis para a compreensão dos processos comunicacionais da sociedade de massa.

 

Da mesma forma, a sociedade é nutrida e moldada de acordo com todos esses meios a que está suscetível pelos relacionamentos e interações. E não só a sociedade, mas também as palavras e as linguagens são atualizadas pelo compartilhamento da mesma estrutura sistêmica. No contexto social, os homens se comunicam compreensivamente através da língua solidificada pelo pensamento coletivo e pela sistematização da retórica comunicacional. E são justamente estes elementos que produzem e firmam a legitimidade ou não de uma retórica na sociedade de massa. Estão em jogo indivíduos unidos por uma linguagem em comum e por uma série de elementos sígnicos. O ser humano deve estar atento, sobretudo, aos valores cognitivos e não às palavras propriamente ditas.

 

Entretanto, se os discursos retóricos se constituírem de uma argumentação debilitada, é possível surtirem efeitos negativos, conflitos e ruídos na transmissão das mensagens. Os conflitos são iminentes e, na maioria das vezes, prejudicial para o processo de comunicação. O fundamental nesse ensejo é facilitar as negociações e estar aberto ao diálogo para verificar quais as opiniões e argumentos que estão envolvidos nessa problemática. Só então, gerenciar o processo da política de boa vontade a procura do entendimento entre as partes. Um exemplo de conflito ocorrido na atual sociedade brasileira foi a crise política do Governo Federal.

 

Para harmonizar as relações entre os seres humanos, entidades e sistemas sociais, o profissional de Relações Públicas recorre à retórica em sua forma mais plena. Ele considera a pluralidade e heterogeneidade da sociedade de massa, organizada por meio de um contrato social. Através dessas ferramentas de poder é possível chegar a um desejado equilíbrio entre os interesses da realidade social, visando a erradicação de conflitos, além da ratificação e da permanência de uma compreensão mútua entre os indivíduos. Com estratégias de comunicação, é necessário respeitar as diversidades da sociedade, seus valores, identidades particulares e os intercâmbios culturais dos grupos sociais. Ter consciência de que, mais importante do que as ferramentas de comunicação utilizadas para orientar mudanças sociais é o processo que será desenvolvido no fortalecimento dos relacionamentos humanos.

 

Uma das maiores questões talvez ainda seja a vontade de verdade, elucidada por Foucault. Através dessa ansiedade compulsiva pelo conhecimento, e, conseqüentemente, pelo poder, o indivíduo é capaz de absurdos. Ele busca prestígio, legitimidade e o poder através da retórica (no caso relatado da crise política brasileira, a corrupção foi o início de um relacionamento conflituoso entre governantes e governados, e na retórica está a esperança de não perderem sua legitimidade). Mas só isso não basta, é essencial sincronizar o ethos e o pathos para melhor eficácia do discurso. A relação entre os dois propõe uma dimensão subjetiva do orador através da imagem discursiva que o orador constrói de si mesmo e da imagem discursiva que ele faz do público ouvinte. Formam-se imagens bricoladas de valores e juízos; de sentimentos particulares e sensíveis, como as paixões de Aristóteles.

 

Através da disseminação desses valores, o orador tentará provocar a compaixão e despertar sentimentos de uma verdadeira dialética passional. Cabe lembrar que o valor é descoberto e não julgado, formulado ou criado. Não se dá valor a nada, se descobre. Por ser uma qualidade própria dos homens, os valores fundamentam uma relação entre sentido e conhecimento. Podem ser subjetivos e objetivos, dependendo do propósito e da forma como são concebidos.

 

Todo o trabalho de Relações Públicas baseia-se na descoberta desses valores para formular um discurso legitimador da imagem institucional. Através da arte da argumentação e da consciência do individuo como ser humano, pertencente a um grupo social, o discurso e a dialética se afirmam em busca da liberdade de expressão. Tais premissas podem ser aceitas, rejeitadas ou, até mesmo, nem percebidas pelo outro. Isso porque diversos aspectos colaboram para a efetivação da comunicação, tais como: a semiologia, através dos códigos lingüísticos; a sociologia, através das leis sistêmicas de convívio; a psicologia, através das revelações sobre o comportamento humano; e a lingüística, que, através das palavras e da linguagem, se torna base para todo o desenrolar do princípio retórico e comunicacional.

 

A argumentação tem um papel fundamental para as Relações Públicas atuarem na valorização das relações humanas e nas mudanças comportamentais da sociedade. O profissional enfatiza o poder da palavra na dinâmica cultural da coletividade, além de edificar uma linguagem, como agente poderoso neste processo de legitimação da comunicação pela gestão retórica dos relacionamentos humanos.

 

 

 


 

 

 

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NOTAS

 

1. “Von denen letzlich abhängt welche Bedeutung und welchen Wert man der jeweiligen wissenshaftlichen Disziplin beimißt. Wissenschaft sind, erflolgreich oder erfloglos, interessant oder schal, fruchtbar oder unfrudchtbar, in genauem Verhältnis zu der Bedeutung oder dem Interesse der Problem, um die es sich handelt“ (BURKART, 2002, p. 421).

 

2. “Darüber hinaus macht das Modell deutlich daß auch Massenkommunikation selbst nicht isoliert gesehen werden darf: Der Massenkommunikationsprozeß muß stets als ein Element des Gesamtsozialsystems ("Over-All Social System")  betrachtet werden, welcher dieses wohl beeinflußt, aber auch umgekehrt von diesem beeinflusst wird (so z. B. Über die Zugangsmöglichkeiten zu den Medien, über Vorschriften, die deren Besitzverhältnisse und Kontrollmöglichkeiten zu den Medien, über Vorschriften, die deren Besitzverhältnisse und Kontrollmöglichkeiten betreffen u. ä.“ (BUCKART, 2002, p. 498).

 

3. “(a) Language is a formal object - an entity of relationships; as such it is comparable to other formal objects and is subject to scientific analysis. Language can be described by another language, i.e. a metalanguage consisting of defined terms with a single meaning.

(b) Language is a semantic object - an architecture of forms containing meaning.

(c) Language is a social object - a collective institution” (ZILVINAS, s.d.).